quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Homem da Floresta

Há muito tempo, quando ainda pequeno, minha mãe costumava contar-me a respeito de um homem que levava as crianças pequenas e malcriadas para longe de seus lares. Tenho certeza de que ouvira histórias ou lendas semelhantes. A simples menção a respeito do homem era o suficiente para colocar medo em nossos tênues e ingênuos corações. Não importava sua aparência, ou o que carregava, e nem o paradeiro dos meninos e meninas sequestrados; o que importava era somente uma coisa: não desobedecer aos seus pais, pois essa era a lição a ser aprendida.



Eu vivia em uma amena e afastada cidade no interior do Estado, e, em razão disso, conservávamos tradições e costumes locais. Lendas, portanto, eram adaptadas ao nosso ambiente rural. Pais contavam a seus filhos que o homem, ao sequestrar as crianças, desaparecia com elas para dentro de uma densa floresta que fazia fronteira a malha urbana. Sequer chegávamos próximos à borda dessa floresta. Adolescentes – que sabiam que a história não passava de um simples folclore – perambulavam por entre as matas. Caçadores, idem. Não culpo nenhum deles, afinal, o alvo do homem da floresta eram crianças como nós.

A fábula, de fato, consistia-se em um conto antigo. Remetendo-se há tempos longínquos e esquecidos. Provavelmente meus avós escutaram a mesma narrativa que eu, assim como seus antecessores. Nunca soube ao certo quando ou como isso começara. Nem era uma criança má, embora estremecesse diante da história do mesmo modo que qualquer outro garoto de minha idade. Contudo, os anos passaram, e a inocência escapara de meus dedos, somente para dar graça às alegrias, preocupações, orgulhos e frustações da vida adulta.

Hoje, meu único filho, Ethan, com apenas sete anos de idade, representa tudo o que tenho de mais sagrado. Embora possa parecer clichê ou piegas, ele é a razão da minha vida. Minha esposa, Lisa, morrera ao dar a luz, e Ethan jamais chegara a conhecer sua própria mãe. Eu fazia de tudo para que nada lhe faltasse, e ele crescera bem. Sabia que se tornaria uma excelente pessoa no futuro. Morávamos na mesma cidade que cresci e passei tanto a amar. Inúmeros amigos haviam se mudado, alguns permaneciam e poucos retornavam para cá em questão de tempo. Ethan frequentava a mesma escola, brincava no mesmo parque e andava de bicicleta nas mesmas ruas que eu, como o fizera em sua idade.

Nunca lhe contei ou amedrontei-o com essas histórias. Não houve e nem haveria necessidade. Uma noite, no entanto, acordei exatamente às 03:30 a.m., pois escutara um barulho no corredor. Levantei-me para conferir o que poderia ser e encontrei Ethan em pé, parado diante à porta da frente. Aproximei-me de meu filho, chamando-o pelo nome. Ethan – que estivera imóvel como uma estátua – mexeu-se, virando em minha direção. Seus olhos, sonolentos e confusos, vaguearam pela sala de estar até perceberem minha presença. Perguntei-lhe o que fazia ali, e ele dissera-me que não sabia.

Aliviado, percebi que não passara de um simples caso de sonambulismo. Carreguei-o até a cama, cobri-lhe e dei um beijo de boa noite. No dia seguinte, enquanto servia o seu cereal favorito, questionei-o a respeito, e como havia imaginado, Ethan não se lembrava de nada. Terminamos, deixei-o na escola e parti para o trabalho. Uma semana depois... Ethan desaparecera. Foi no meio da madrugada. Sentindo uma secura intensa, levantei-me para beber um pouco de água, encontrando a porta da frente aberta. Por instinto, minha primeira atitute foi correr até seu quarto, somente para deparar-me com uma cama vazia. Procurei por toda a casa e não havia nenhum sinal do meu filho. Saí para o jardim e a rua nada mais me oferecia a não ser o breu e a quietude noturna.

Assim, enquanto uma equipe de busca perambulava pela cidade, dois policiais interrogavam-me. Explicaram-me que, por medidas de segurança, me acompanhariam no restante dos dias, pois o sequestrador poderia fazer algum contato comigo, pedindo por alguma quantia de dinheiro em troca do meu filho. Depois de três dias as buscas por Ethan estenderam-se para cidades vizinhas. Pôsteres e fotografias foram espalhados para todos os cantos. Amigos e vizinhos prestaram-me auxílios. Os policiais que permaneceram comigo durante esse tempo voltaram para suas estações, dizendo-me para ligá-los caso algo acontecesse.

Os próximos meses foram como um inferno para mim. Minha vida tornou-se apática, sem sentido. Por inúmeras vezes dirigi o carro até a escola de Ethan no caminho para o trabalho, simplesmente por puro hábito. Ao preparar o café da manhã, colocava dois pratos à mesa. De noite escutava sons na casa, e perguntava-me, em mente, se Ethan estivesse acordado. Todos esses momentos... Em que me pegava realizando as mesmas atividades rotineiras que anteriormente envolviam a presença de meu filho... Partiam meu coração. Comecei, gradativamente, a acordar no meio da noite, clamando por seu nome, como se o houvesse visto em algum sonho em que nunca conseguia me lembrar dos detalhes.

Aos poucos, a paranoia tomou conta de mim. Concentrar-me no trabalho tornara-se uma atividade praticamente impossível. Também não queria ficar em casa por mais tempo além do necessário. Passei a frequentar bares, sozinho. Dormia pouco; quando não passava noites em claro, vagando pela cidade. Era uma desordem completa, e embora meu chefe solidarizava-se com a situação, disse-me que não poderia continuar desse modo. Eu deveria superar aquilo, caso contrário não haveria outra escolha, a não ser demitir-me. Foi durante uma noite, em particular, que adormeci embriagado na minha sala de estar. Acordei, alarmado, pensando ter escutado um barulho qualquer. Trôpego, caminhei em direção ao banheiro. O que vi, no entanto, assombrou-me imensamente. Imóvel, de costas para mim e contemplando a porta da frente, estava Ethan.

Aquilo me chocara. Sabia que não poderia ser real. Como poderia? Ethan desaparecera há meses. Minha mente, insana, começara a pregar-me peças. Não conseguia e nem podia acreditar em meus olhos. Em um primeiro momento, fiz a menção de correr em sua direção, mas algo havia me impedido, pois minha atenção subitamente desviara-se para a silhueta de um homem, que se encontrava parado à soleira da porta entreaberta. Desnorteado em meu desespero, implorei para que Ethan ao menos virasse seu rosto em minha direção. Entretanto, meu filho começara a caminhar em direção à porta. Pedi-lhe que voltasse, porém, indiferentemente, ele continuara. Dando suas mãos a aparição sombria, Ethan caminhara noite afora.

Segui-os e notei que ambos encontravam-se há cerca de cinquenta metros da casa. Sentia que algo estava errado, porém continuei a acompanhá-los. O caminho pela qual a assombração (pois já duvidava que fosse qualquer outra coisa) seguia não me era estranho. Curiosamente, não havia ninguém nas ruas. Sequer uma alma bisbilhoteira a espiar por entre as frestas de uma janela qualquer. Absolutamente nada. Continuei em seus encalços, até perceber para onde ambos se dirigiam. Parei, e enquanto estático, observei-os adentrar na borda da floresta. Por algum motivo, meu corpo cobriu-se de arrepios, enquanto que um nó no estômago começara a se formar. Reunindo coragem, ultrapassei o cercado que separava as árvores da estrada.

O interior da mata era completamente fechado, e mal pude enxergar o caminho. Ethan desaparecera, porém continuei a andar, como se algo me impelisse a continuar em frente. Aos poucos, acostumei-me à escuridão, e uma impressão ruim acometera-se sobre mim. Percorri, por centenas de metros, aquela densa vegetação. Era estranho. Nunca estive naquele lugar, mas passava-me uma sensação diferente. Não me lembrava de nada, mas a intuição guiava meus passos conforme avançava pelo desajeitado caminho da floresta. Ofegante, cheguei finalmente a uma pequena clareira. O luar a iluminava muito bem, e pude ver o que o acaso me revelara.

Ao canto, próximo a uma rocha, havia uma ossada. Lágrimas afloravam de minha face conforme me aproximava do corpo há muito carcomido por vermes. As roupas eram do mesmo pijama que Ethan vestira na noite em que desaparecera. Caí de joelhos, aos prantos. Segurei o que restara de seu corpo em meus braços, enquanto que soluços tomavam conta de mim. “Por que Ethan?” “O que houve?” “Por que está aqui?” “Por que de todos os lugares, este?”. E aos poucos, conforme proferia múltiplos questionamentos, dei-me conta da verdade. Esta floresta... Este lugar amaldiçoado. Era para cá que crianças deveriam ser levadas. Crianças que desrespeitavam a seus pais. Ethan era uma delas. Sim... Ele desobedecera a mim. Pois naquela noite, implorei-lhe para que a permitisse viver.

Não me admirava que não o houvessem encontrado. Sequer acredito que tenham procurado por ele aqui. É uma cidade pequena, não disponibilizavam de muitas mãos ou recursos. Compreendia agora. Meu fingimento. Minha crença infundada em acreditar que tudo estivera bem, quando claramente não estava. Pois no dia em que nascera, Ethan arrancara Lisa de mim... Ele a havia afastado de mim, deixando-me sozinho. Foi ele quem prejudicara nossas vidas. Por isso fiz o que precisava ser feito. Por isso naquela noite, conforme segurava suas pequenas mãos, percorri por esse mesmo caminho. Por isso o abandonei aqui... Para que o homem da floresta o levasse de mim.

Créditos: creepypastabrasil
~Carol

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