domingo, 3 de agosto de 2014

O elevador

  O prédio era bem antigo. Oito andares. À época da construção, foi considerado um dos mais luxuosos da cidade. Em 1930, nenhum edifício tinha oito andares, porque ninguém queria subir tanta escada, e elevador custava muito caro. Além disso, as pessoas tinham medo de subir tão alto naquela caixa de madeira — que, ainda por cima, nos primeiros tempos, vivia enguiçando. Por isso, além de elevador, o prédio também possuía um ascensorista, que trabalhava uniformizado, vestido como se fosse um general em dia de festa.
  Isso tudo meu pai me explicou assim que entramos na lata velha, que subiu rangendo os sete andares que nos levariam ao nosso novo apartamento. Novo é modo de dizer. Estava caindo de podre. Desde que ficara desempregado, meu pai morava mal. Cada casa dele durava pouco tempo, porque logo era despejado por falta de pagamento do aluguel. Ali, não ia ser diferente. Ainda bem. De todos os lugares esquisitos em que ele tinha se enfiado, aquele ali era disparado o pior.
  Não era só por causa do cheiro — um cheiro de mofo e poeira. Nem por causa das lâmpadas fracas dos corredores. Nem por causa dos muitos apartamentos vazios. Mas a combinação de tudo isso dava ao prédio um ar meio lúgubre.

  Logo na primeira noite, fui despertado por um barulho terrível. Parecia que uma máquina muito velha tinha sido posta em movimento. A coisa rangia, trincava, estalava. De repente, um ruído forte de pancada e o silêncio voltou. Mas foi por pouco tempo. Uns vinte minutos depois, a barulheira recomeçou.
  Só podia ser o elevador. E pilotado por algum vizinho bêbado ou maluco, porque a coisa não parava. Subia, descia, bufava, estalava. Dava uns minutos de pausa e começava tudo de novo.
  Não dava para dormir daquele jeito. E foi me dando um mau humor. Um mau humor que só crescia. Quando isso acontece, eu esqueço tudo: prudência, cuidado, educação. A raiva sobe até a minha cabeça como um elevador de última geração: direto, sem paradas e sem interrupções.
  Por isso, pulei da cama e fui direto para o corredor mal iluminado. O elevador estava parado no meu andar. Vazio, quietinho e silencioso. Xinguei meia dúzia de palavrões e voltei para a cama.
  Mal senti o lençol cobrir meus ombros e o barulho recomeçou. Desta vez, movido por uma raiva mais racional, abri a porta bem devagar e espiei pela fresta. O elevador continuava lá, no meu andar, tão parado quanto antes. Parecia que estava me provocando.
  Quando o dia amanheceu, eu era só nervos. Nenhuma capacidade de raciocínio, nenhuma idéia brilhante, nenhum sono. Só uma irritação medonha. Resolvi fazer uma inspeção mais cuidadosa no prédio. Vistoriei todos os corredores, o que tinha sido a recepção — e agora não passava de um hall abandonado —, as entradas de serviço, o compartimento da lixeira. Não havia nada que pudesse fazer um barulho daqueles durante a noite.
  Já estava quase desistindo quando vi um homenzinho entrar no prédio. Muito velho, encurvado e malvestido, não deu pela minha presença e dirigiu-se diretamente ao pequeno pátio que ficava atrás do prédio. Ia andando e resmungando, como fazem as pessoas já meio sem juízo. Resolvi segui-lo.
  Vi quando abriu uma portinhola ao lado da lixeira — cuja existência eu não tinha percebido — e tirou dali uma vassoura, um esfregão, um balde e alguns panos sujos. Droga. Era só o faxineiro. Pelo estado dos corredores e da escada, sempre imundos e encardidos, eu nunca imaginaria que o prédio tivesse um.
  A falta de sono estava me deixando tonto. Achei que era melhor deixar minhas investigações para mais tarde e fui para casa tentar dormir.
  Já era quase noite quando acordei. Meu pai chegava de mais um dia sem trabalho e sem vontade de conversar. Me deu cinco reais e pediu para que eu fosse ao mercado comprar dois pacotes de sopa instantânea e uns pães. Seria nosso jantar.
  Pelo menos, os corredores estariam limpos e sem aquele terrível cheiro de poeira e mofo. Mas, ao sair de casa, percebi que o faxineiro não tinha sequer passado por ali. O chão continuava encardido e fedorento; os degraus da escada, cobertos por uma camada de décadas de sujeira.
  Além de intrigado, fiquei mais irritado ainda. Fiz as compras, jantei com meu pai, nós dois em silêncio. Ele foi dormir e fiquei zanzando pela sala sem sono.
  Às onze e meia, tudo permanecia em silêncio. Mas, para ter certeza de que a noite seria mesmo tranqüila, fui vistoriar o prédio mais uma vez. Subi as escadas até o oitavo andar, espiei todas as saídas para o telhado. Então me dirigi ao térreo, bati nas paredes em busca de portas falsas, fui para o pátio escuro, verifiquei que a porta da lixeira estava bem trancada. Olhei melhor para a portinhola do quarto de limpeza. A construção era mais recente do que o prédio. Como se fosse um puxadinho. A porta não era tão velha quanto as outras. Forcei um pouco a fechadura e, para minha surpresa, ela se abriu.
  Havia ali um interruptor e acendi a luz. Era um pequeno quarto, com as paredes cobertas por estantes de tábua cheias de produtos de limpeza. Óleos de vários tipos, graxa, lustradores, polidores de metal, cera, diversos tipos de esponjas, estopas e flanelas, ferramentas. Ao contrário do que se podia imaginar, ali dentro tudo estava impecavelmente limpo e arrumado.
  Fiquei intrigado. Onde o faxineiro usaria todos aqueles produtos? Evidentemente, não era no prédio. Peguei uma lata de polidor de metais e sacudi. Estava quase vazia, o que indicava que seu conteúdo tinha sido gasto em algum lugar. A mesma coisa aconteceu com quase todas as outras latas e os vidros.
  Eu estava tão entretido na inspeção que não percebi logo uma caixinha atrás de uma das latas. Era pequena, de madeira, com algumas flores pintadas na tampa. Não combinava com o lugar. Tentei abrir. Estava trancada. Tive que forçar a madeira com uma chave de fenda que se encontrava pendurada na parede e ela cedeu.
  Decididamente, o velho faxineiro era biruta. Era uma caixinha de costura, com linhas, agulhas, dedais, também muito bem organizada como todo o resto. Num dos compartimentos, havia vários botões dourados, desses que se usavam antigamente em uniformes militares.
  Distraído, não percebi o tempo passar. Só me dei conta da hora quando um relógio, desses com som de carrilhão, começou a badalar. Na quinta batida do gongo, ouvi o primeiro estalo. Era a máquina. E dali, do quarto de limpeza, dava para ouvir muito mais nitidamente de onde vinha o barulho. Logo começou a movimentar-se com seu rangido característico. Mas muito mais alto. Quase ensurdecedor. Parecia que eu estava dentro da engrenagem.
  Comecei a tatear as paredes em busca da origem do som. Uma delas, a que ficava encostada na construção antiga, vibrava mais do que as outras. O ruído seco das pancadas que dei indicava que era uma parede falsa. Mas não descobria como abri-la.
  Foi quando vi, no meio das ferramentas, uma chave de fenda de tamanho fora do comum. Parecia mais um pé-de-cabra. Achei que seria boa para forçar os cantos da parede e tentei tirá-la do lugar.
  A chave resistiu. Não estava pendurada, como parecia estar. Puxei com mais força e ela se levantou, permanecendo presa por uma das pontas, como se fosse uma alavanca. E era mesmo. Assim que consegui levantá-la completamente, o barulho das engrenagens parou subitamente e foi substituído por outro, semelhante ao de uma grade se abrindo. Em seguida, a parede falsa deslizou suavemente para o lado, deixando à mostra o interior de uma cabine de elevador com as luzes apagadas.
  Mesmo no escuro, dava para perceber que o elevador era magnífico. A caixa toda revestida de tecido adamascado; um tapete de veludo no chão; o painel, de madeira trabalhada pintada de dourado. Devia ser o elevador original, do tempo em que o prédio era o mais luxuoso da cidade.
  Apesar do medo que começava a se infiltrar sob a minha pele, não resisti e resolvi olhar de perto. Queria ver se a máquina funcionava mesmo — e aonde ia dar. Entrei e comecei a procurar o botão da luz. Não sei se apertei o botão errado ou se alguma força sobrenatural agia sobre o mecanismo. Mas, subitamente, as luzes se acenderam, a grade dourada se fechou com um estrondo e a cabine começou a subir, fazendo o barulho que eu ouvia todas as noites.
  Embora o edifício tivesse apenas oito pavimentos, o elevador passou do último andar e subiu mais um pouco, passando por um longo vão fechado. De repente, parou. Parou diante de uma parede branca, sem porta e sem saída. E as luzes se apagaram, deixando tudo numa escuridão medonha.
  Estendi os braços, tentando alcançar o painel e apertar algum botão que acendesse a luz ou fizesse a máquina andar novamente, mas minhas mãos esbarraram em um obstáculo. Parecia uma pessoa. Um homem, possivelmente. Eu tinha tocado seu ombro direito, que estava vestido numa espécie de casaco de lã áspera, mas de boa qualidade, provavelmente bordada com fios metálicos. Apertei o ombro e senti apenas ossos. Se fosse mesmo um homem, seria muito magro. Apertei novamente. Magro demais. Não havia sinal de carne, só ossos duros e rígidos.
  Com o ar já começando a me faltar, decidi tirar a criatura do caminho e empurrei-a com força. Mas o único resultado foi ficar com minha mão esquerda presa entre seus dedos. Dedos sem carne. Só ossos. Finos, duros, pontudos, que entravam sem dificuldade no meu pulso e quase me faziam gritar de dor. Consegui reunir alguma coragem para dizer:
  — Me deixe sair daqui.
  Mas a criatura não se movia nem permitia que eu me mexesse. Dei-lhe mais um safanão e senti seus dedos cravados na minha garganta. Agora eu sabia: ia morrer ali. Sem ajuda, sem socorro, e ninguém jamais descobriria meu corpo.
  Tudo o que lembro vai até aí. Acredito que tenha desmaiado. Quando dei por mim, estava do lado de fora do quarto de limpeza, caído no chão do pátio sujo. Já amanhecia. Levantei e olhei para meu pulso, que exibia as marcas de cinco dedos num vermelho quase roxo. Nem precisei de espelho para adivinhar que meu pescoço devia estar na mesma situação. Tomado de raiva, fui para a porta do quartinho e forcei a fechadura. Nada. Parecia colada com cimento. Bati, soquei, esmurrei. Estava assim, no meio da minha luta contra a portinhola, quando percebi alguém às minhas costas. Era o faxineiro que, zangado, perguntava o que eu queria ali.
  Quase avancei no homem. Aos berros, exigi que ele me contasse o que havia ali dentro, que tipo de assombração criava ali. Como o velho só resmungasse, sem dizer coisa com coisa, agarrei-o pelo pescoço e mandei que abrisse a portinhola.
  Com um olhar de puro ódio, ele obedeceu. Abriu a porta com uma pequena chave e afastou-se para que eu pudesse entrar. Para minha surpresa, era um quartinho imundo, com vassouras e panos sujos jogados de qualquer jeito dentro de baldes encardidos.
  — Já viu tudo o que queria? Então, suma daqui e me deixe fazer meu trabalho — rosnou o velho.
  Ainda quis lhe fazer algumas perguntas, mas sabia que ele não responderia a nenhuma delas. Fui para casa, exausto, fazer um curativo no pulso e no pescoço. Tomei uma xícara de chá e caí na cama. Devo ter dormido o dia inteiro e parte da noite porque, quando acordei, tudo estava escuro e silencioso. Só meu pai roncava alto em seu quarto. Levantei, bebi um copo d'água e voltei para a cama.
  Comecei a dormir novamente, mas um barulho terrível me acordou. Estalos e rangidos. Olhei para o relógio. Meia-noite em ponto.
  Não conseguiria mais dormir.

Esse conto foi retirado do livro "Sete ossos e uma maldição", de Rosa Amanda Strausz.
~The Undertaker

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