quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O chapéu de guizos

  Ouço vozes. Sempre ouvi, desde muito criança. Para mim, nunca existiu nada de excepcional nisso. Aprendi a dialogar com elas, a perceber quando estavam só zoando de mim, quando falavam sério, ou quando refletiam apenas a solidão de seres exilados num mundo que ainda hoje não consigo adivinhar qual seja.
  No entanto, agora ando assustado; pela primeira vez. Não tinha medo quando, aos três anos, escutava uma mulher pedindo socorro no meio da noite. Nem quando, aos cinco, ouvi minha avó, que tinha morrido três meses antes, avisar meu pai para pegar uns papéis que estavam numa caixa de madeira escura no fundo do armário. Nem tampouco quando, aos sete, uma mulher cantava bem baixinho cantigas de ninar.
  Agora, tenho treze anos. E, pela primeira vez, estou apreensivo com as vozes. Para falar a verdade, a que me dá medo é só uma voz: a do chinês. Esse cara não é normal. E não consigo acreditar que ele seja totalmente do bem.

  Como sei que a voz vem do chinês? Porque a ouvi pela primeira vez assim que encontrei a estatueta de louça, guardada no fundo de um baú cheio de coisas que tinham pertencido a minha avó.
  Eu estava sozinho em casa e resolvi dar uma espiada nele. Sempre gostei de coisas antigas e ali dentro tinha uma incrível quantidade de quinquilharias. Bijuterias descascadas, xícaras lascadas, fotos, lenços já meio comidos por traças. Foi justamente um desses lenços que em chamou a atenção. Estava bem manchado, como se tivesse sido guardado sem lavar. E servia de embrulho para alguma coisa. Desdobrei cuidadosamente o pano e descobri, no meio dele, uma pequena imagem de louça: era o chinês.
  Não era uma imitação de obra de arte antiga. O chinês usava roupas ocidentais, apenas um pouco antiquadas. Lembrava muito o senhor Chan, o velho quitandeiro que vendia verduras à minha avó quando eu era bem pequeno. O senhor Chan tinha sido misteriosamente assassinado quando eu tinha apenas cinco anos, mas eu ainda me lembrava do rosto dele.
  Não devia ter mais de dez centímetros de altura e, tirando a semelhança com o quitandeiro, nada nele chamava a atenção, com a exceção de seu chapéu. Parecia mais uma peça de vestuário medieval, daquelas usadas pelos saltimbancos. Era alto, listrado, cheio de pontas e com minúsculos guizos, que tilintavam quando a gente sacudia a imagem.
  Não sei por que, mas o som me arrepiou. No entanto, em vez de embrulhar novamente a estatueta e devolvê-la ao seu lugar, levei-a para o meu quarto e deixei-a sobre a mesa do computador.

  À noite, quando eu me preparava para dormir, dei uma espiada na peça. Os olhos do sujeito estavam brilhantes e, embora eu não tivesse tocado nele, os guizos começaram a tilintar. Subitamente, uma voz ecoou pelo quarto:
  - Sua mãe não vai gostar nem um pouco de saber que você mexeu naquele baú...
  Era o chinês. E ele estava certo. Minha mãe já tinha me proibido de ficar fuçando armários e gavetas que não fossem minhas. Decidi escondê-lo. Como se adivinhasse meus pensamentos, a voz prosseguiu:
  - Me ponha debaixo do seu travesseiro. Coisas extraordinárias acontecerão...
  Minha intuição dizia que não deveria fazer aquilo. Embora parecesse apenas esquisito, o chinês tinha uma aura maléfica que até um leigo poderia perceber. Mas a curiosidade foi maior. Acomodei a imagem entre a fronha e o travesseiro, deitei-me e adormeci imediatamente.
  Tive uma noite aparentemente tranquila, o que não era normal. Geralmente, eu tinha sonhos agitadíssimos. No entanto, agora era como se minha mente tivesse passado a noite mergulhada no mais profundo silêncio. Ou como se todas as lembranças tivessem sido apagadas da minha memória.
  - Coisas extraordinárias, sei... - resmunguei ao levantar, com o pescoço meio dolorido.
  Assim que pisei na calçada, ainda sonolento e atrasado para a primeira aula, cruzei com o gato branco de dona Lineusa, nossa vizinha. O bicho devia ter fugido de casa. Não podia deixá-lo ali. Era o xodó da velha. Ao me ver, o gato arrepiou-se de um jeito que chegou a dar medo.
  - Calma, bichinho, venha cá. Vou levá-lo para casa - eu murmurei enquanto o segurava firmemente.
  O problema é que o gato parecia endemoniado.Ou apavorado, quem vai saber? E não parava de se debater. Tive que segurá-lo com mais força, para evitar que rasgasse meus braços com as unhas.
  Finalmente, consegui imobilizá-lo. O bicho me olhava com os olhos vermelhos de ódio e medo enquanto eu mantia uma das mãos em torno de seu pescoçço. Tão macio e quente, o pescoço do bichinho. Aos poucos, meus dedos foram se contraindo. Era irresistível apertar um pouquinho mais, sentir não apenas o pêlo macio e a musculatura trêmula, mas também as vértebras do final da coluna. Apertar e deslocar um pouco, sentir os ossos cederem sob as forças do meu dedo, e ver os olhos do bicho, cada vez mais vermelhos, estufarem como se fossem saltar do crânio, ver a boquinha cada vez mais aberta, sentir a respiração chegando ao fim. Não sei quanto tempo permanecemos assim. Só que, quando o larguei na calçada, estava morto.
  Não era como se eu estivesse sonhando. Eu sabia o que estava fazendo. Só não havia nenhuma emoção, nem medo, nem culpa, nem nada. Exatamente como a noite anterior, mergulhada no mais profundo silêncio interno. E também não houve voz nenhuma. Nada, nada, nada. Só o gato morto. Por mim.
  Assim que depositei o corpo do bicho em frente à casa de dona Lineusa, toda a paz foi-se embora. Todo o pavor abateu-se sobre mim de uma só vez. Céus, o que eu tinha feito? E por quê? Apavorado, com medo de mim mesmo, saí correndo. Corri até chegar à escola, com o coração disparado e a cabeça completamente confusa.
  Estranhamente, eu não estava atrasado. Mais estranhamente ainda, durante todo o dia, fui acompanhado por uma sorte extraordinária. Apesar dos fatos desconcertantes da manhã, tirei dez numa prova de matemática para qual nem sequer tinha estudado. Ganhei uma bicicleta na rifa da cantina - e nem lembrava de ter comprado o bilhete. Meu casaco, que estava perdido, foi encontrado. Todas as meninas pareciam encantadas comigo, riam de tudo o que eu falava, me rodeavam no recreio, me tratavam como se eu fosse o cara mais interessante, bonito e especial do colégio.
  Finalmente, quando já estava chegando em casa, dei de cara com dona Lineusa, que vinha sorrindo, comovida, em minha direção. Sem que eu entendesse o motivo, a velha me abraçou, emocionada.
  - Já me contaram tudo, meu filho.
  Gelei.
  - Tudo? - Eu só conseguia gaguejar.
  - Tudo. Um homem que passava por aqui de manhã cedo viu quando você tentou salvar meu gatinho.
  - Mesmo? - Meu espanto não tinha limites.
  - Ele contou como você foi carinhoso com o Fofinho, como tentou reanimá-lo. Infelizmente, não foi possível. Alguém fez uma crueldade terrível com ele.
  Eu só queria desaparecer dali bem rápido. Mas, antes de me desvencilhar dos agradecimentos da velha, me ocorreu perguntar:
  - A senhora conhece o homem que me viu na calçada?
  - Nunca o vi por aqui. Era um senhor chinês.
  Entrei em casa ventando e corri para o quarto, disposto a quebrar a imagem em mil pedaços. Puxei o travesseiro da cama com violência, sacudi a fronha e deixei cair no chão o embrulho. Apesar da queda, o objeto rolou suavemente pelo tapete, permitindo que o tecido se desenrolasse sem pressa e que seu conteúdo se revelasse aos poucos.
  Sem prestar muita atenção, peguei um martelo e ergui-o bem alto, para dar mais impulso ao golpe. Mas, ao ver a imagem desembrulhada, minha mão ficou paralisada.
  Diante de mim, sobre o tapete, estava caída a imagem de um gatinho de louça branca. A figura, em si, não teria nada de incomum, não fosse o estranho chapéu de guizos encaixado no alto de sua cabeça.

Esse conto foi retirado do livro "Sete ossos e uma maldição", de Rosa Amanda Strausz, e apóia minha teoria de que esses autores desalmados têm algo contra gatinhos adoráveis </3
~The Undertaker

Um comentário:

  1. Nãaaoo, só por que eu amo gatos? Estou tentada a comprar esse livro. Parece tatão bom *-*

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