terça-feira, 5 de agosto de 2014

Morte na estrada

  Por favor, não me entenda mal. Mas não gosto de meninas. Acho esquisito o jeito delas, sempre gritando demais, rindo demais, olhando a gente e cochichando. Sempre acho que estão rindo de mim. Tenho alguns colegas que já beijaram. Eu tenho nojo. E também medo de que a menina ria de mim.
  Mas esse medo foi a minha perdição. Vou contar o que aconteceu.
  Imagino que todo mundo conheça a história da assombração da estrada. Eu conhecia desde pequeno. Meus pais também. Era assim: uma família viajava de carro quando surgia uma mulher desesperada à beira da estrada. Pedia socorro, dizia que tinha um carro caído na ribanceira próxima dali com três crianças feridas dentro dele. A família parava e ia até o local. Ao chegar lá, descobria um carro acidentado. De fato, havia três crianças feridas, mas vivas. Ao volante, estava a mãe delas, morta — e era a mesma mulher que tinha pedido socorro na estrada.
  O fato de já ter escutado a história inúmeras vezes não livrou nem a mim nem a minha família de passarem por uma situação muito parecida.

  Voltávamos de viagem. Uns dias muito divertidos no sítio de um amigo de meu pai. Vínhamos, no carro, ainda relaxados, brincando e já fazendo planos para o próximo feriado. Estávamos a pouca distância de casa quando vimos uma mulher na beira da estrada. Era bonita, bem vestida, do jeito como se arrumam as mulheres elegantes mesmo quando estão de férias. Calça jeans, camisa branca, cabelo comprido preso num rabo-de-cavalo, poucas jóias. Mas não foi nada disso que nos chamou a atenção. Foi o desespero dela.
  A mulher gesticulava, chorava, gritava, tudo ao mesmo tempo.
  Meu pai quase passou por ela sem parar, mas minha mãe gritou:
  — Pelo amor de Deus, Luís! Vamos socorrer a mulher!
  Ele nunca contrariava minha mãe.
  Assim que parou o carro, uns dez metros adiante, a mulher veio correndo até nós. Chegou com os olhos arregalados, sem fôlego.
  — Um acidente! Um acidente terrível! — dizia ela enquanto apontava para baixo de um barranco que margeava a estrada.
  Antes que ela completasse o que queria dizer, minha mãe saltou do carro e correu na direção em que a mulher indicava.
  — Corre, Luís! Tem mesmo um carro lá embaixo! — gritou minha mãe, aflita.
  — As crianças! Três crianças lá dentro... — completou a mulher, ainda arquejando.
  Meu pai largou o volante e dirigiu-se para o local, seguido de perto por minha mãe e por mim. Não olhamos para trás, para ver se a mulher nos acompanhava.
  Não acompanhava.
  Ao chegar lá, o rosto angustiado, com o rabo-de-cavalo desfeito pelo impacto, mas os olhos tão arregalados de pavor como tínhamos visto na estrada, era o da mulher ao volante.
  Morta.
  E, de fato, no banco de trás, três crianças choravam. Estavam machucadas, mas vivas.
  Nem vou me dar ao trabalho de descrever como foram as horas seguintes. Telefonemas, ambulância, hospital, uma confusão terrível. Só muito tempo depois, chegaram os avós dos meninos —que aliás, eram dois meninos e uma menina da minha idade — e tomaram conta de tudo, assim pudemos voltar para casa.
  Levou um bom tempo para que as imagens do acidente e da mulher assombrada saíssem da minha cabeça. Uns três anos, acho. Não que eu tenha esquecido a história, mas parei de ter pesadelos, o que já era alguma coisa.
  Um dos mais freqüentes era uma cena que acontecera no hospital. A situação já estava sob controle, os médicos começaram a chegar e a levar as crianças para a enfermaria. Foi quando a menina, cujo rosto eu não conseguia ver direito, porque estava muito machucado, agarrou-se em mim. Ela me abraçou, agarrou meu pescoço. Estava muito assustada. Eu também. Mas achei que ela queria me beijar.
  O rosto ensangüentado dela me deu um nojo tamanho que a empurrei com força. Ela acabou caindo no chão, de onde foi levada, aos berros, pelos médicos.
  A cena ficou gravada na minha memória. E voltava sempre em forma de pesadelo, cada vez mais agoniado.
  Num dos primeiros dias em que eu consegui relaxar, e vinha andando pela rua calmamente, a caminho de casa, vi uma menina parada na calçada, perto da minha casa. Estava de calça jeans, blusa branca e com o cabelo preso num rabo-de-cavalo.
  Mesmo com uma roupa tão simples, ela chamava a atenção. Tem gente que é assim, parece que tem um ímã que atrai a gente. Dá vontade de ficar olhando.
  Só quando cheguei bem perto, notei que havia alguma coisa errada com ela. Acho que era a expressão do rosto, bonita, mas estranhamente vazia. Só bem mais tarde, notei seus dedos, longos e trêmulos como as antenas de um inseto. Mas, aí, já foi tarde demais.
  Eu disse “oi” e sorri. Não sabia por que, mas a desconhecida me dava vontade de ser gentil. Queria me aproximar dela.
  — Estava esperando você chegar, Tico — disse ela em resposta ao meu cumprimento.
  Disse assim, sem mais nem menos. Como se eu aconhecesse há muito tempo.
  — Você sabe meu nome? — perguntei, meio espantado.
  — Claro.
  — A gente se conhece?
  — Não tenho tempo para perguntas. Preciso que você venha comigo.
  Ela não parecia aflita. Mais por curiosidade do que por outro motivo, resolvi seguí-la.
  Andamos em silêncio por um tempo. Até que não resisti e perguntei o nome dela.
  — É Dolores, não lembra? Mas pode me chamar de Dodô. Todo mundo chama.
  Eu não lembrava. E comecei a ficar preocupado. Já estávamos quase saindo da cidade, e Dodô não dizia nada. Só caminhava, sem olhar para os lados e sem prestar atenção em mim.
  Aquilo foi me deixando aflito. Tentei puxar assunto.
  — Não me lembro de onde conheço você... — gaguejei.
  Dolores se limitou a dar uma risadinha seca, que logo desapareceu de seu rosto.
  — Não lembra mesmo? — Um leve tom de deboche ao fundo.
  Nunca fui bom em manter o autocontrole. Não sabia porque, mas a situação me dava calafrios. Engrossei a voz.
  — Se você não me explicar direitinho o que está acontecendo, paro por aqui mesmo.
  Ela não pareceu abalada com minha voz alta e quase esganiçada, voz de quem está assustado.
  — Não seja idiota. Já estamos chegando.
  Aquilo mexeu com meu orgulho. Decidi ser firme e prosseguir sem demonstrar maiores medos.
  O problema é que há uma grande distância entre o que a gente pretende demonstrar e o que realmente acontece com nossos nervos.
  Quer saber o que acontecia com os meus? Basta imaginar um minhocário lotado. Milhões de minhocas rebolando ao mesmo tempo, umas esbarrando nas outras, umas se enroscando nas outras. Talvez isso dê uma imagem mais exata do que ocorria com meus nervos.
  Mas resolvi contrariar a multidão de vermes molengos na qual se transformara meu sistema nervoso. Firmei a voz e disse:
  — Tá bom. Vamos lá.
  A voz saiu mais fina do que eu gostaria. Mas não tremeu.
  Depois de uma caminhada mais longa do que eu imaginava que pudesse suportar, finalmente, Dodô parou. Parou à beira da estrada, a cerca de dois quilômetros de onde eu tinha visto o acidente que matara a mãe das três crianças.
  Foi só então que me lembrei nitidamente de onde a conhecia. Era a menina que chorava no banco de trás do carro, a mesma que tínhamos levado para o hospital. Olhando bem para seu rosto, ainda se podiam ver algumas cicatrizes. Mas era difícil reconhecer. A menina à minha frente não dava nojo, não tinha o rosto deformado, não estava em pânico. Era bonita, tranqüila e ligeiramente perturbadora.
  Dodô parou à beira da estrada e ficou olhando para um ponto lá embaixo, no barranco.
  — O que tem ali? — perguntei.
  — Por que não vai até lá e vê? — sugeriu ela, as mãos ainda mais nervosas, como se fossem estrangular alguém.
  Um pavor medonho, o sangue gelado, mas eu tinha que ir. E fui. Desci com cuidado a ribanceira e consegui vislumbrar algumas ferragens retorcidas lá embaixo.
  Não era hora de fugir. Obriguei minhas pernas a descerem mais um pouco, meus olhos a não se fecharem e minha garganta a não berrar de pavor.
  Havia uma motocicleta lá embaixo. O corpo de um rapaz,ainda de capacete, jogado no meio do mato. Pela posição das pernas, dobradas para trás, e pelo peito que não se mexia, dava para adivinhar que estava morto.
  Uma menina estava enroscada no banco do carona. E parecia ainda viva. Ao me aproximar, percebi a calça jeans e o cabelo preso no rabo-de-cavalo. Era a menina da estrada, eu tinha certeza. Mas não fugi, decidido a salvá-la.
  Cheguei perto dela, vi que respirava, passei os braços em torno de seu corpo e levantei-a. Assim que comecei a subir a ribanceira, senti que os seus dedos envolviam meu pescoço como uma planta que cresce rápido demais.
  — Calma, já vamos chegar — tentei falar. Mas era cada vez mais difícil.
  Seus dedos, nervosos como as antenas de um inseto,apertavam cada vez mais minha garganta.
  Antes que eu pudesse tentar me desvencilhar, vi seus olhos muito abertos. E um sorriso, que se abria à medida que suas mãos se fechavam.

Esse conto foi retirado do livro "Sete ossos e uma maldição", de Rosa Amanda Strausz.
~The Undertaker

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