quinta-feira, 10 de julho de 2014

O fruto da figueira velha

  Denise não acreditava em casa mal-assombrada. Não há nada que dez baldes de tinta fresca não resolvam, costumava dizer. Além disso, ficou louca quando viu o casarão à venda. Era simplesmente espetacular. Tinha um excelente terreno para fazer jardim e quintal, três salas imensas, cinco quartos, três banheiros e vários cômodos que poderiam ser adaptados. O lugar perfeito para uma recém-casada que pretendia ter muitos filhos.
  Velha era, até demais. Exigiria um bocado de reformas. Mas o preço era incrivelmente baixo. Jamais conseguiria comprar uma casa daquelas tão barato.
  Não foi difícil convencer o noivo a trocar o sonho de um pequeno apartamento de sala e quarto por uma mansão maravilhosa. Compraram o imóvel e levaram um ano inteiro fazendo obras. Ao fim do período, tinham uma casa simplesmente deslumbrante. A antiga fachada descascada agora exibia uma alegre pintura amarela. Portas, janelas e pisos tinham sido recuperados. Cômodos que antes cheiravam a mofo deixavam passar fartas lufadas de ar fresco. Canteiros de flores e ervas aromáticas substituíam o terreno baldio que antes rodeava a casa. Tinham capinado e replantado tudo.
  Denise só manteve uma antiga figueira. Era simplesmente magnífica com seu tronco forte e uma profusão de galhos. Quem chegasse à casa, veria, em primeiro lugar, a figueira, que reinava, soberana, na entrada. Em seguida, prestaria atenção à moradia impecavelmente reformada.

  Agora, ali, tudo era claro, colorido e cheirava bem.
  Verdade que a vizinhança ainda evitava o lugar. Até mesmo o carteiro relutava em se aproximar. Mas nada impediu o jovem casal de mudar-se para lá logo após a lua-de-mel.
  Denise ainda se lembrava bem do dia da mudança, os dois pegando carona no caminhão e olhando as ruas com uma curiosidade infantil. Foi nessa ocasião que ela reparou na igrejinha que ficava a poucos quarteirões da casa. Uma graça. Apesar de sua arquitetura antiguinha, era obviamente nova, com a pintura ainda fresca e um sino que ainda reluzia.
  Denise e Tiago capricharam na primeira noite que passaram na nova residência. Montaram uma bela mesa no jardim e serviram ali um jantar especial, com toalhas bordadas, talheres novos, flores e velas.
  Apaixonado, o casal tomou uma taça de champanhe, enquanto admirava a propriedade e engolia a comida feita por eles mesmos — que nem estava tão boa assim, mas nem ligaram.
  Nenhum dos dois era bom cozinheiro. O romantismo foi o suficiente para ignorarem o bife duro e o arroz mal cozido. Mas, na hora da sobremesa, foi impossível engolir o pudim. Feito com todo o amor do mundo — mas nenhuma técnica culinária —, foi deixado de lado logo depois da primeira colherada. Estava intragável.
  O jeito era rir do desastre. Rir muito, jogando a cabeça para trás, olhando a lua e dando muitos beijos.
Foi assim, com a cabeça jogada para trás e plena de felicidade, que Denise percebeu que a figueira estava repleta de frutos. À luz do luar, os figos brilhavam, cintilantes e convidativos.
  Nem pestanejou. Correu para a árvore e colheu o mais bonito. Seria a sobremesa certa para aquela noite perfeita — só estragada por um errinho de nada na receita do pudim. Voltou para a mesa rindo e mordendo a fruta. Estava deliciosa. Madura, carnuda e doce como a melhor das sobremesas. Comeu uma metade, deu a outra ao marido, e foram dormir.
  Nada explicaria o terrível pesadelo daquela noite. A brisa estava fresca, o quarto arejado, os lençóis eram novos e macios, o jantar tinha sido leve e ela estava muito feliz. Tratava-se de uma realidade tão perfeita que era consigo mesma que Denise sonhava. Sonhava que estava dormindo em sua casa nova, ao lado de seu marido, depois de um alegre jantar no jardim.
  No sonho, experimentava passar o peito do pé de leve sobre o lençol. Ia sentindo a maciez do tecido como um carinho até que seu pé tocasse o corpo de Tiago. Então, voltava para a posição inicial e começava tudo de novo. Deslizar a pele pelo algodão fresco, tocar a perna do marido, recolher o pé.
  No entanto, num desses movimentos, esbarrou numa coisa diferente. Em vez da suavidade do tecido ou do calor do corpo de Tiago, seu pé tocou numa superfície áspera e úmida, como um osso recoberto por escamas geladas. Abriu os olhos, sobressaltada, e viu uma criatura sentada em sua cama, entre ela e o marido.
  Não dava para saber ao certo do que se tratava, se bicho ou assombração. O corpo, muito magro, era recoberto de couro rugoso. A coisa eslava sentada de cócoras, com os joelhos dobrados, mas não da maneira como uma pessoa encolhe as pernas. E os pés e mãos, mais parecidos com garras, lhe diziam que aquilo, decididamente, não era humano.
  Nem precisaria dizer, bastava olhar o rosto. A cabeça pendia do pescoço e girava em todas as direções como a de uma galinha. Mas os olhos estavam cravados nela. Miúdos, brilhantes, tão estúpidos quanto cruéis.
  Embora a coisa não a tocasse com as mãos, Denise sentia a garganta comprimida de tal modo que não conseguia gritar. Tampouco podia mover o corpo. Muda e paralisada, viu quando a criatura abriu a boca — seria aquilo um sorriso? — e lhe disse:
— Gostaria de saber quem a autorizou a roubar minhas frutas.
  Denise queria se defender. Não tinha roubado nada. A casa era sua. Mas a voz não saía. A criatura, no entanto, pareceu ler seus pensamentos.
— A casa é sua? — Uma risada debochada ecoou pelo quarto. — Quem lhe contou um absurdo desses? Esta casa me pertence. Ela e tudo o que está dentro dela.
  Antes que Denise pudesse retrucar, o estranho ser pulou para o chão e completou, sibilando:
— Inclusive você.
  Dizem que quando uma pessoa morre vê toda a sua vida passar diante dos olhos numa fração de segundo.   Coisa parecida aconteceu com Denise. De repente, tudo o que já tinha ouvido falar a respeito de fenômenos sobrenaturais passou por sua mente ao mesmo tempo. Informações às quais jamais dera a menor importância. Histórias que sempre julgara pertencerem ao folclore e às crendices populares. Subitamente, tudo fazia sentido, tudo parecia totalmente real.
  Figueiras são as casas do diabo, sempre lhe dizia sua avó. O tinhoso escolhe essas árvores como moradia porque elas foram amaldiçoadas por Jesus.
  Denise nunca dera muito crédito às histórias da avó. Tivesse prestado atenção nelas, teria desconfiado do casarão tão barato, do pavor que a vizinhança manifestava do local. Mas nunca tinha sido supersticiosa.
— Superstição? — debochou o diabo, lendo seus pensamentos. — Ora, minha querida, você é minha propriedade e está em meus domínios. E roubou uma fruta da minha árvore. Vai ter que devolvê-la.
  Sentada na cama, quase sufocando de pavor, Denise não conseguia responder, nem se mover, nem sequer respirar direito.
  Quando o grito se soltou de sua garganta, Tiago deu um pulo. Já era manhã alta. Sentada na cama, Denise uivava como um bicho selvagem, na mesma posição em que estivera enquanto o demônio lhe falava as coisas horríveis que escutara. Teria dormido daquele jeito? Sentada? Não era possível. A impressão era de que fora tirada dali, inconsciente, e acabara de ser devolvida a seu quarto.
  Tiago tentava acalmá-la. Dizia mil vezes que tudo não passara de um pesadelo. Mas nada adiantava. Denise ainda sentia inteiro o horror da presença, como se a besta apenas tivesse se tornado invisível, mas continuasse ali.
  Desde essa noite, não conseguiu mais dormir direito. Mal anoitecia, seu coração ficava pesado, cheio de pressentimentos. O sono era interrompido a toda hora por sustos que a faziam abrir os olhos na escuridão. Não via nada diferente no quarto, mas tinha certeza de que o demônio estava ali, com seus olhos estúpidos e cruéis fixados nela.
  E foi assim, noite após noite. Denise emagreceu, ganhou olheiras profundas, tornou-se frágil e nervosa. Nada lembrava a jovem apaixonada e cheia de vida que se casara tão pouco tempo atrás.
  Dois meses mais tarde, teve uma notícia. Estava grávida. Em vez de ficar feliz, como era de se esperar, caiu no choro. Não sabia por que, mas tudo o que aquela gravidez lhe dava era um medo imenso. Como para confirmar seus piores presságios, naquela noite, o bicho medonho voltou.
  Estava quase adormecendo quando sentiu que garras ásperas e frias tocavam seu rosto. Mesmo sem abrir os olhos, sabia quem estava a seu lado. Podia sentir seu hálito metálico e ouvir seus passos cambaleantes.
— Não adianta fingir que está dormindo. Sei que você me escuta — disse a coisa, com sua voz falsamente meiga.
  Não era faz-de-conta. Denise não conseguia se mexer, nem falar, nem gritar. E foi assim, paralisada, que escutou a voz do demônio pela última vez.
— Não quero perturbá-la demais, minha menina — começou ele, pigarreando. — Mulheres grávidas devem ser deixadas em paz. A última coisa que eu desejaria era que esse doce fruto que você carrega no ventre azedasse por conta de seu nervosismo.
  O peçonhento pulou para o chão, e continuou falando enquanto andava de um lado para outro, balançando a cabeça, mas sem jamais tirar os olhos de sua presa.
— Mas, pense bem, minha linda. Agora, você terá uma chance de ouro de pagar a dívida que tem comigo. Você ficou com meu fruto. Eu fico com o seu. Tudo muito justo. Basta que você me entregue a criança e prometo não voltar a perturbar seu sono.
  Mesmo impossibilitada de mover-se ou gritar, Denise agitou-se de tal maneira que seu interlocutor começou a rir.
— Ora, ora, não entendo por que tamanha indignação. Estou lhe propondo um pagamento absolutamente justo pelo roubo que você cometeu. E, na verdade, não é bem uma proposta. Estou apenas lhe dando a chance de comportar-se com dignidade e de corrigir seu erro. Se você não me entregar essa criança por bem, farei exatamente o que você fez comigo: invadirei seus domínios e a tirarei de você como quem arranca uma fruta do galho.
  Dado o recado, o demônio desapareceu. E cumpriu sua promessa. Não apareceu mais nos meses seguintes.
  A ausência do tinhoso não acalmou Denise. Quanto mais se aproximava a data do parto, mais tudo lhe parecia um pesadelo real.
  Um dia, Tiago passava pela rua, preocupado com o estado da esposa, quando viu a igrejinha. Era a mesma que tinham avistado no dia da mudança. Estava aberta. Da rua, era possível perceber que não havia ninguém ali dentro. Assim mesmo, resolveu entrar e rezar um pouco.
  O interior da pequena igreja era mal iluminado. Mal dava para perceber direito os detalhes da construção. Mas era evidentemente nova ou tinha sido recém-reformada porque, em vez do aroma adocicado de incenso que costuma impregnar as igrejas, ali o que predominava era cheiro de tinta fresca.
  Tiago aproximou-se do altar, ajoelhou-se e, antes mesmo de fazer o sinal-da-cruz e começar a rezar, viu que um homem se aproximava. Era o padre. Parecia bastante jovem.
— Posso ajudá-lo? — perguntou o pároco. Sua voz era suave e inspirava confiança.
  O rosto de Tiago iluminou-se. Sim, se havia alguém que podia ajudar naquela situação era um padre. Contou-lhe tudo o que acontecera, sem omitir nenhum detalhe. Por fim, foi tranqüilizado pelo jovem religioso.
— Meu filho, não se preocupe com mais nada. Agora, esse assunto está em minhas mãos. Hoje à noite, farei uma visita a sua esposa e conversarei com ela.
  À noite, conforme o prometido, o pároco lhes fez uma visita. Novamente, ouviu toda a história, agora contada por Denise. E repetiu as mesmas palavras que já tinha dito a Tiago:
— Não se preocupe mais com isso, minha filha. O poder que eu represento é muito forte. Ninguém roubará aquilo que só pertence a meu senhor. Assim que a criança nascer, virei buscá-la. Ela ficará comigo na igreja. Lá, ela estará a salvo.
  Embora jovem, o padre transmitia imensa segurança e fé. A voz era puro conforto; os olhos, só doçura. Denise sentiu imediatamente que podia confiar nele. A partir daquele dia, não teve medo de mais nada. O demônio não perturbava mais seu sono, ela se alimentava bem e chegava até mesmo a cantarolar enquanto comprava as roupinhas para o bebê e decorava seu quarto.
  Ao fim do nono mês, teve seu filho, um menino forte e saudável. Nem chegou a levá-lo para casa. Embrulhou-o numa manta de lã azul-clarinha, como o céu, e saiu diretamente do hospital para a igreja, onde o padre já a esperava.
— O senhor acha que ele vai precisar ficar muito tempo aqui? — perguntou, aflita por ter que se separar do bebezinho.
— Não, minha filha. Basta que ele durma aqui esta noite. Amanhã cedo, iremos batizá-lo. Depois disso, já estará consagrado e intruso nenhum conseguirá aproximar-se dele.
  Aliviada, Denise deu um beijo na testa do menino e foi para casa, seguida de Tiago.
  Na manhã seguinte, bem cedo, foram para a igreja, acompanhados dos padrinhos. Denise estava ansiosa, mas feliz. Tiago torcia para que o pesadelo tivesse logo um fim. Já estavam decididos a mudar de casa e começar vida nova bem longe dali.
  Era esse o assunto dentro do carro, onde os dois casais riam para tentar disfarçar a tensão. Denise já estava até pensando que talvez pudessem se mudar para outra casa antiga.
— Desde que tenha uma boa igreja por perto — completava o padrinho, que nunca tinha levado aquela história de figueira muito a sério.
— A verdade é que sempre ficamos impressionados demais com as forças do mal — dizia a madrinha. — Acho que o maior poder que elas têm vem do nosso próprio medo. Quando decidimos enfrentá-las, não resistem.
— Bem, talvez não seja bem assim — ponderou Tiago, que ainda guardava bem vivos os gritos apavorados da mulher nas piores noites.
  Mas o padrinho interveio:
— Ora, Tiago, se não fosse assim, o tal demônio teria aparecido nesta noite mesmo para buscar a criança. Ele apareceu?
  Denise admitiu que não. Nada lhe perturbara o sono.
— Pois então — teimou o padrinho. — Vocês ficaram impressionados demais com essa história.
  A conversa seguia tão animada que o grupo chegou ao fim da rua sem ter parado na porta da igreja.
— Passamos do ponto — disse Tiago, ainda rindo. — Vamos ter que voltar.
  Fizeram a manobra no carro e retornaram, desta vez prestando atenção. Mas não viram igreja nenhuma.
— Tem certeza de que é aqui? — perguntou a madrinha.
— Claro! — respondeu Tiago, já apreensivo.
  Passaram novamente pela rua toda. Não havia sinal de igreja por ali.
  Toda a tranqüilidade de Denise tinha desaparecido. Sem dar ouvidos às ponderações dos padrinhos, saltou do carro e começou a correr a calçada de cima para baixo como uma louca.
  Finalmente parou, com os olhos arregalados, fixos num ponto de um terreno baldio. Todos a seguiram.
No centro do terreno, imaculadamente limpo, só havia uma pequena planta. Uma muda de figueira com cerca de cinqüenta centímetros de altura.
  Ao lado da muda, um fiapo de lã azul misturado com a terra denunciava que alguma coisa tinha sido enterrada ali.

Esse conto foi retirado do livro "Sete ossos e uma maldição", de Rosa Amanda Strausz.
~The Undertaker

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