segunda-feira, 9 de junho de 2014

Click

  Algo estava me incomodando o dia inteiro. Algo importante. Algo que eu deveria lembrar, mas não conseguia. Quanto mais eu tentava lembrar o que era, mais distante da resposta eu parecia ficar.
Normalmente o tráfego me permitia chegar no escritório policial onde eu trabalhava por volta das 7 da manhã, mas tive um imprevisto, pois o tráfego estava um inferno e alguém estacionou um carro na minha vaga, então eu cheguei lá às 7:15. Meu chefe Willian era o único no escritório. Caminhei pelos corredores e sentei na minha mesa. Willian olhou para mim com um sorriso, como se estivesse prestes a comentar sobre o meu atraso.
  7:30. Eu olhei para o calendário. 22 de março. O que havia hoje? Eu procurei na mesa em busca de pistas. Em algum lugar entre as montanhas de papelada desorganizada deveria haver alguma dica do que eu estava esquecendo naquele dia. Meu crachá. Um porta retrato com a foto de minha esposa. Declarações. Tribunal. Merda!

*click*


  Era para eu estar no tribunal. Como eu podia esquecer? Eu tinha que chegar a tempo. Droga. 7:45. Eu ia me atrasar. Mas antes tarde do que nunca. Corri para fora do prédio e entrei no carro. O caminho para o tribunal era de 20 minutos. Eu fiz em 10.
  10:15. O café estava frio. Tomei um gole de qualquer maneira. O réu do tribunal não era um cara de sorte. Eu o prendi em flagrante. O que era uma piada, porque diziam que ele era perigoso e muito cuidadoso. Ele foi condenado a prisão. Eu caminhei até meu carro e dirigi de volta ao escritório devagar observando os carros que me ultrapassavam. Quase todos eles. Exceto por aquele Camaro preto, ele parecia estar me seguindo desde o tribunal. Eu ignorei e enfiei a mão no casaco procurando algum cigarro. Não havia nenhum.

*click*

  Eu esqueci no balcão. Merda. Já era a segunda coisa que eu esquecia hoje. Willian fuma. Eu ia pegar um cigarro dele.
  14:00. Willian ainda estava em patrulha. Fiquei tentado chamá-lo no rádio só para ele me trazer um cigarro. Maldito vício dos infernos.
  Às 14:45 fui chamado ao escritório do capitão sobre uma ameaça de morte. A ameaça de morte feita para mim. Aparentemente, por não aceitar suborno daquele condenado no tribunal hoje de manhã.
  16:30. O escritório policial parecia mais quieto do que o normal hoje. Algo parecia fora do normal. O que havia de errado com o John? Toda vez eu o pegava olhando para mim, então ele rapidamente desviava o olhar. Havia algo no meu rosto? Passei a mão no meu rosto para verificar.

*click*

  Percebi que a sensação de ter esquecido alguma coisa na verdade eram várias. Eu tinha esquecido de fazer a barba hoje. Foda-se. Eu estaria fora do trabalho em 30 minutos. Mal podia esperar por um banho quente.
  17:20. O trânsito estava um inferno de novo. Pingos de chuva tamborilavam no telhado do meu carro. Os limpadores de para-brisa faziam aquele som de chiado. Só um idiota havia me ultrapassado.
  Por volta das 18:05, cheguei à minha garagem. O carro da minha esposa não estava lá. Ela geralmente já estaria em casa essa hora. Eu fiquei um minuto a mais no carro observando o movimento da rua, sem saber exatamente o que estava procurando. Devia ser apenas os instintos do trabalho, eu acho.
  Saí do carro e caminhei até o meio-fio. Vi um carro preto estacionado na beira da estrada, cerca de meio quarteirão abaixo. Eu não poderia dizer a marca ou modelo. A chuva tornava difícil de ver. Se eu tivesse que adivinhar, diria que era um...

*click*

... Um Camaro. O mesmo que eu vi ao longe no tribunal esta manhã. Eu não havia me esquecido dele. Meus músculos estavam tensos. Eu me abaixei por trás do carro e espiei minha casa.
  As janelas. Alguém estava me observando de dentro. Eu tinha certeza disso. Saquei minha arma.
  Dei a volta por trás da casa, abaixado nas sombras. Eu devia ligar para o escritório policial. Eu instintivamente agarrei a minha cintura, onde o rádio geralmente ficava.

*click*

  Nada lá. Hoje era o dia do esquecimento. Eu tinha deixado na estação policial, mas não era o melhor momento para refletir sobre isso. Peguei o telefone celular para ligar para o meu parceiro.
  Meu polegar pairou acima da tela. Minha esposa veio à mente. Decidi ligar para ela primeiro, me certificar de que estava bem. Disquei o número dela.
  Ele tocou.
  O telefone estava na casa, mas ninguém atendeu. Chamou duas vezes e a chamada foi para o correio de voz.
  Uma sensação de peso preencheu meu peito. O Camaro preto. A ameaça de morte. O sentimento que me incomodou durante todo o dia.
  Eu apontei minha arma em linha reta e dei três passos para trás. Corri para a frente e chutei a porta. Ela se abriu .
  Uma fração de segundo depois, alguém saltou ao meu lado. Meu dedo já estava no gatilho. Então puxei.

  BANG

  06:15.

  As luzes se acenderam. Meu parceiro gritou. Willian se levantou de trás do balcão. Os outros saíram de seus esconderijo. Suas bocas estavam abertas, mas ninguém disse nada.
  Minha esposa estava caída na minha frente em uma poça de sangue com um tiro na cabeça.

*click*

  Era meu aniversário.

Fonte: SigmaPasta
~The Undertaker

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