sexta-feira, 30 de maio de 2014

No pântano

  Se você quiser entender por que eu deixei o lugar onde eu morava, você só precisa ouvir toda a história. Você não vai acreditar, é claro. Mas o ceticismo não significa nada. Porque o que eu vi naquela noite no pântano, tem me perturbado desde então. Em minha mente, em meus pensamentos e às vezes até mesmo em meus sonhos.
  Ela existe como uma memória perturbadora da qual eu não consigo me livrar. Isso nunca irá embora enquanto eu estiver vivo. É uma daquelas coisas tão terríveis que ainda estará em minha mente no leito de minha morte, uma vez que isso já aconteceu.



  Mas mesmo que você não acredite em mim, eu vou contar de qualquer maneira. Talvez possa servir como um alerta ou um apelo por cautela, se você alguma vez encontrar-se perto dos pântanos tarde da noite...
  Na época, eu estava trabalhando em um restaurante fast food de merda.
  A única coisa pior do que trabalhar em um restaurante fast food de merda é trabalhar em um restaurante fast food de merda no período noturno, sozinho, sem nenhum veículo. Especialmente quando você vive na zona rural. Esse foi o meu caso durante alguns anos, até a noite deste evento.
  Nesse período, eu morava a poucas milhas de distância do restaurante em que trabalhava, devido à minha falta de um veículo ou de qualquer acesso a um sistema público de transporte, eu era dependente de outros para me darem carona ao trabalho.
  Uma noite, após uma movimentada noite servindo os clientes, eu fechei a loja e tranquei o restaurante. Quando eu telefonei para minha carona, ninguém atendeu. Veja bem, eu não estou aqui para mostrar o quão piedoso sou, então não posso deixar de expressar minha raiva com o fato de que a pessoa que me dava carona era meu colega de quarto, que tinha um carro, mas não tinha nenhuma bosta de trabalho e eu era o único que pagava o aluguel, a única coisa que ele podia fazer era me levar e buscar no trabalho. E esse otário teve o descuido de cair no sono, me deixando com a única porra de opção de caminhar até minha casa. Mas esta não foi a primeira vez que isso tinha acontecido.
  A primeira vez que aconteceu, eu demorei uma hora e meia para chegar em casa, isso que eu estava andando depressa. Aqui nós temos um pântano. É basicamente um pântano como qualquer outro. Espesso, escuro, úmido, cheio de sapos, repleto de mosquitos, infestado de jacarés, com cheiro de merda de pântano com grama grossa e alta, taboas, ciprestes e sons de outros animais se debatendo na água verde daqui. Existe uma longa estrada que atravessa o pântano, os poucos postes de iluminação que não estavam quebrados estavam bem distantes um dos outros, não há estradas laterais e as casas por essa rua são bem separadas, às vezes por mais de um quarto de milha de distância.
  Não é simplesmente assustador andar por essa estrada durante a noite, é aterrorizante pra caralho! Você ouve sons, reais e imaginários que vem do pântano. Sons repetitivos, de coachos, uivos, grunhidos de animais. O farfalhar das folhas e galhos na copa das árvores ciprestes, e os salpicos de água abaixo delas. Isso é o pior: Você pode ouvir o som de algo à espreita nas proximidades mergulhar abruptamente sob a água. Pode ser uma tartaruga, uma cobra ou um jacaré. Você nunca sabe; só continua andando, com os dentes e as mãos tremendo, esperando que nada rasteje através da grama alta ao lado de você.
  Ou ainda pior do que os sons, são os saltos repentinos que acontecem quando você está andando e se assusta quando um sapo ou coisa parecida salta para a água. O som faz você quase se borrar e você começa uma maratona de corrida que dura cerca de três segundos antes de perceber o que era. Então você fica com o coração batendo tão forte que o som de seu sangue jorrando nos tímpanos é mais alto que os barulhos ao seu redor. Estes são os tipos de coisas que acontecem quando você está no pântano.
  Era isso que eu tinha que enfrentar naquela noite, enquanto meu colega de quarto babaca dormia esparramado no sofá, provavelmente com a televisão ligada, em sintonia com a reprise dos Três Patetas e os irmãos Marx.
  E não pense que eu liguei apenas uma vez e simplesmente desisti. Pode ter certeza que seu celular tinha cerca de sete ou mais chamadas não atendidas, três mensagens de voz muito hostis e várias mensagens de texto agressivas. Eu podia apenas imaginar o telefone, em outro cômodo da casa, vibrando suavemente em minhas tentativas desesperadas de acordá-lo.
  Mas, eventualmente eu desisti. E por não ter nenhum amigo que eu pudesse contactar, parei no posto de gasolina nas proximidades, comprei uma bebida energética e comecei minha caminhada de volta para casa.
  Agora você tem que entender, os primeiros trinta ou mais minutos não eram tão ruins assim. Eu ainda estava na parte populosa da cidade, onde há luzes, lojas, casas e carros passando em grande número, que fazem você se sentir mais seguro.
  Porque quando tem apenas um ou dois carros passando há cada cinco minutos, isso significa que pode haver um psicopata em um desses carros e eles podem ter tempo suficiente para um assassinato sem que haja testemunhas; Mas se há vários carros ao redor, pode haver psicopatas que passam, mas provavelmente não vão matá-lo, porque há muitas pessoas por perto para testemunhar o crime. Pelo menos esse era meu raciocínio. Eu estava errado.
  Nenhum psicopata parou ao meu redor enquanto eu caminhava por esta parte da cidade.
  Em seguida, chega o momento da minha jornada onde eu tenho que me afastar dos bairros suburbanos e caminhar por algumas ruas quase desertas. E é aqui onde as coisas ficam um pouco menos seguras e eu tenho que ser um pouco mais cauteloso.
  Há menos tráfego nessas estradas e você nunca sabe quando algum punk ou uma gangue pode sair de um terreno baldio ou de uma casa, para mexer com você, tentar comprar uma briga ou acertar uma garrafa vazia no seu crânio para algum ritual ou coisa assim.
  Estes eram os pensamentos que passavam pela minha cabeça enquanto andava nesta região, até o ponto onde as casas começavam a se tornar cada vez menos frequentes e o pântano começava. Era lá que começava a estrada de terra que levava até minha casa. E é ai que eu me encontrava a pé nesta noite.
  Eu olhei para a estrada estreita. Você só consegue enxergar todo caminho neste momento, antes de desaparecer na escuridão enevoada. Eu me ressentia do que teria que passar na próxima hora caminhando a pé até chegar em casa. Mas a raiva tomou conta do meu medo quando pensei que tudo isso poderia ser evitado se não fosse a negligência e descuido do meu colega de quarto. Quando chegasse em casa eu realmente consideraria a possibilidade de dar um soco certeiro no rosto do maldito.
  E com esse pensamento em mente, eu me lancei desafiadoramente na estrada. E quanto mais eu andava, mais escuro ficava, até que nenhuma luz do céu noturno podia ser vista acima de mim. Logo o som de qualquer veículo nas estradas que eu havia passado se tornaria inexistente. Não era só eu, era a estrada e o pântano. E quaisquer outras criaturas que habitassem ali. Eu ouvi grilos cantando, os coachos dos sapos e o ocasional canto de pássaro. Para evitar o medo eu me concentrei no coro e deixei os sons despreocupar minha mente. Eu andei olhando meus sapatos esmagando a areia enquanto os colocava um a frente do outro. Eu ia contar meus passos até chegar no cem, e então começar tudo de novo. Eu tentei me distrair na repetição.
  Meus sapatos amorteceram e eu senti as solas dos meus pés ficarem úmidas. Eu parei de contar e comecei a me perguntar se devia bater em meu colega de quarto com aquela meia molhada, mas meu pensamento foi interrompido quando olhei para frente, e vi que não estava sozinho na estrada. O pânico intenso tomou posse da minha mente. Eu podia discernir a silhueta distante e suave de uma figura à minha frente. Estava tão longe que não poderia dizer se estava se movendo para frente ou para minha direção. Eu congelei e podia sentir o sangue jorrando em minha têmporas.
  Quais eram as chances de ser um punk malicioso vagando nesta rua a noite esperando para me roubar ou comprar uma briga?
  Este foi meu pensamento reconfortante enquanto tentava me convencer de que eu estava a salvo. Tentei manter a calma, para não deixar meus nervos me dominarem. Quero dizer, quem quer que seja, provavelmente estaria tão assustado quanto eu.
  Eu não sabia o que fazer. Correr? Havia apenas duas direções. Continuar andando? Quais eram os riscos? Enquanto eu estava lá, eu vi que a figura de fato estava se movendo em minha direção e sua forma foi se tornando mais definida. E foi nessa hora que eu comecei a notar o quão estranho ele estava se movendo.
  A figura não caminhava normalmente. Não balançava os ombros como uma pessoa normal faria. O que estava vindo em minha direção fazia movimentos curtos, rápidos, empurros forçados.
  Eu podia ver com a pouca luz que havia, seus membros sendo projetados em seu torso e como ele se aproximava. Vi como sua cabeça era maior do que a de um humano, e ouvi fracamente os ruídos que ele parecia fazer. Um som de sucção, como se estivesse se movendo mais rápido. Eu podia ver seus olhos cintilando com um brilho amarelo, e como eles estavam me encarando, grandes e redondos.
  E então ele parou.
  Nós dois estávamos lá, imóveis, a menos de cinco metros de distância, olhando um para o outro. Em seguida, ele soltou o grito mais ímpio e desumano que eu já ouvi. Como um porco sendo sacrificado. Ele gritou violentamente e o som ressoou pelo pântano. Os grunhidos dos animais pararam de repente. Tudo parou.
  E um estrondo foi tudo o que eu pude ouvir depois.
  O estrondo e zumbido do motor à frente, de um veículo em alta velocidade vindo em direção a nós. A coisa na minha frente debruçou-se e virou para ver os faróis irradiando nosso caminho. Ele foi ao chão sobre as quarto pernas, e me olhou estupidamente com os olhos arregalados antes de rastejar apressadamente para o pântano.
  O veículo que assustou a coisa para longe era o carro do meu colega de quarto. Ele não viu o que quer que fosse aquilo. E eu nunca quis vê-lo novamente.
  Mudei-me o mais depressa que pude, e nunca mais voltei naquela região.

Fonte: SigmaPasta
~The Undertaker

2 comentários:

  1. Nossa esse texto é tão brilhante!

    As partes descritivas, a raiva do personagem... e esse mistério... um ar Lovecraftiano intenso nesse conto!

    Curti pakas!

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