quarta-feira, 28 de maio de 2014

Fitas da Amnésia

  Meus pais sempre me contavam histórias sobre a minha infância que, por algum estranho motivo, eu nunca conseguia me lembrar. Histórias sobre como eu costumava ter um amigo imaginário chamado Bilbo, que supostamente vivia nas paredes com sua cobra de estimação, Axel. Não tinha ideia de onde raios eu tirava isso, mas aparentemente eu passava muito tempo com Bilbo e Axel, porque meus pais falavam deles toda vez que eu os visitava.


  Em dezembro de 2009, decidi tirar umas férias ao longo da semana de Natal. Eu trabalho em Manhattan, no mundo dos negócios, e participo da classe média alta já há alguns anos, então resolvi fazer uma pausa e voltar para a casa onde cresci, na Pensilvânia. No dia 22 de dezembro, fui até a casa dos meus pais, onde eles me levaram imediatamente até o meu antigo quarto.
  No momento em que entrei no quarto, um calafrio percorreu minha espinha, mas não por causa de um sentimento sobrenatural e desagradável, era apenas um arrepio nostálgico, o que era estranho considerando que sequer me lembrava daquele quarto. Aliás, eu não me lembrava de nada da minha infância, a única coisa da qual eu me recordava era a minha adolescência, quando fui mandado para morar com a minha tia por causa do meu transtorno bipolar, que meus pais não conseguiam mais controlar. Desde que eu tome os devidos cuidados, não é nada para se preocupar.
  Tia Janice viria jantar na casa dos meus pais naquela noite, então eu poderia vê-la pela primeira vez em quase quatro anos. Não vou mentir, eu estava um pouco emotivo pensando em como nunca mais havia visto meus parentes velhos e adoráveis desde que comecei a trabalhar em Manhattan, mas apesar disso, minha vida pessoal estava indo muito bem. Naquela época eu estava saindo com uma garota chamada Amanda, mas nós não nos víamos fazia algumas semanas, já que ela teve que pegar um voo até a Califórnia para assistir ao funeral de seu tio.
  O jantar daquela noite foi preparado especialmente pela minha mãe. Outra pequena coisa que, de alguma forma, eu lembro da minha infância: a comida da minha mãe, dando um verdadeiro significado para o velho ditado "assim como minha mãe costumava fazer". Eu queria que Amanda cozinhasse assim. Na mesa de jantar, tia Janice me contou algumas histórias engraçadas sobre a minha infância e os acontecimentos na casa, principalmente os feriados e outras reuniões de família. Infelizmente, eu não conseguia me lembrar de coisa alguma sobre esses eventos, mas eles eram divertidos de se ouvir.
  Depois do jantar, beijei tia Janice na bochecha e ela foi embora. Minha tia ainda tinha boa aparência, apesar da idade avançada, perto dos 70 anos. Isso fez com que eu abrisse um sorriso, só para poder ver o sorriso dela, o que me lembrou da minha adolescência agradável em sua casa em Pittsburgh. Ela vive perto da casa dos meus pais agora, desde que seu marido, tio George, faleceu, alguns anos atrás.
  Por volta das onze horas, meus pais foram dormir e disseram que eu poderia fazer o que quisesse, contanto que não fizesse barulho. Eu decidi ir para o meu antigo quarto e assistir um pouco de televisão até ficar com sono. Procurei em todos os canais, mas não encontrei nada interessante. Então decidi fuçar um pouco pelo quarto.
  Abri o armário e achei o tipo de coisa que você encontraria no armário de um garotinho: action figures, lego, livros de colorir, esse tipo de coisa. O que chamou minha atenção foi uma caixa de papelão marrom no fundo do armário, meio escondida por uma pilha de roupas infantis. Escavei as roupas e tirei a caixa do armário. Dentro havia cerca de seis fitas VHS, todas rotuladas com números desenhados toscamente com canetinha, na caligrafia de uma criança pequena.
  No fundo da caixa havia um pedaço de papel dobrado, arrancado de algum caderno. Dentro dele estava escrito, novamente de canetinha, "As aventuras de Bilbo e Axel". Eu reconheci os nomes do meu amigo imaginário e sua cobra de estimação. Achei aquilo extremamente intrigante, mas pensei que talvez pudesse me ajudar a lembrar da minha infância. Felizmente no meu quarto havia um aparelho de vídeo ligado à TV, que provavelmente não havia sido usado nos últimos dez anos.
  Encontrei a fita com o rótulo "#1" e coloquei no videocassete. O aparelho cuspiu a fita algumas vezes, mas depois da terceira ou quarta vez ela finalmente começou a tocar. Houve uma confusão de estática por cerca de trinta segundos, até que eu apareci: uma versão muito jovem de mim estava parada no mesmo quarto em que eu estava agora, quarto este que parecia não ter mudado nada. Eu estava sentado com a cabeça entre as mãos, de frente para a parede, murmurando alguma coisa incompreensível.
  Pensei que talvez eu pudesse estar brincando de esconde-esconde ou algo desse tipo, então não achei aquilo estranho, no começo. Após cerca de dois minutos de resmungos, comecei a ficar preocupado, já que o murmurar se tornou mais alto, porém ainda incompreensível. O som foi cortado de repente, a qualidade da imagem foi se deteriorando e as cores começaram a se distorcer, mas eu ainda podia ouvir os sussurros tocando na fita. Mas havia algo errado, aquilo não se parecia com a voz de uma criança. Era mais grave e seca.
  Aumentei um pouco o volume, tentando entender aquele som, mas de repente houve um grito ensurdecedor e a estática se tornou apenas ruído branco extremamente alto. Levantei e corri para o videocassete, mas é claro que ele comeu a fita, destruindo-a completamente. Eu olhei para a caixa e peguei a segunda fita, que estava convenientemente no topo da pilha. O "#2" escrito sobre ela com canetinha vermelha.
  Essa fita começou da mesma forma que a última. Quando ela finalmente funcionou, não havia absolutamente nenhum som. Parecia ser uma continuação da fita anterior, mas dessa vez eu estava virado para o outro lado, olhando para a câmera, e minha cabeça não estava mais entre meus braços. Meus olhos tinham anéis pretos profundos em torno deles, e eu parecia exausto e extremamente apavorado. O sussurro surgiu de novo, mais alto e claro do que antes. Para meu horror, eu podia distinguir vagamente um nome sendo dito nos sussurros: "Patrick". Meu nome.
  A fita se ejetou sozinha, seguida pelo conjunto de fitas magnéticas torcidas e deformadas que um dia formavam um vídeo. Não posso negar que eu estava quase molhando as calças nesse momento. Sempre senti que essa casa não era normal. Que essas paredes podiam falar, e que eu deletei minha infância da mente por um bom motivo. Será que isso foi também a causa do meu transtorno bipolar na adolescência?
  Peguei a caixa de fitas e corri até meu carro, sem sequer dizer adeus aos meus pais adormecidos, e fui embora. Eu estava cansado, mas precisava sair daquela casa. Fui para a casa da tia Janice e contei o que aconteceu, mostrando a caixa de fitas. Seu rosto sorridente adquiriu um olhar vazio, e ela parecia assustada e nervosa. Ela me pediu para sentar e relaxar, e sentou-se ao meu lado, segurando minha mão, enquanto me contava a verdade por trás de tudo: as fitas eram na verdade o teste de um psiquiatra sobre o meu comportamento, devido a uma possessão demoníaca que ocorreu na minha infância. Um exorcismo foi realizado, o que quase me matou, e quando o demônio saiu do meu corpo eu sofri amnésia. Acharam que era melhor para mim crescer longe disso, então fui mandado para a casa da tia Janice.
  Acabei voltando para Manhattan, e no outono seguinte eu e Amanda nos casamos. Eu não convidei ou falei do casamento para qualquer membro da minha família, e não vejo mais meus pais ou tia Janice desde aquela noite em 22 de dezembro de 2009. Eu ainda guardo as fitas restantes comigo, mas continuo com muito medo de assistir. Tudo o que eu sei é que ainda há um demônio escondido em meio às paredes daquela casa.
 

Traduzido e adaptado de: Creepypasta Wiki
~The Undertaker

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