sábado, 31 de maio de 2014

A Floresta de Aokigahara

Localizado a oeste da base do Monte Fuji, Aokigahara talvez seja a mais infame floresta em todo Japão e um dos lugares mais temidos do país.

Conhecida pelos japoneses por vários nomes, ela é mais comumente chamada de "Mar de Árvores", um título adequado pela quantidade impressionante de árvores crescendo lado a lado. Infelizmente, ela é conhecida também como "Floresta do Suicídio" graças ao número assombroso de suicídios ocorrendo em seu interior. Finalmente, ela é também chamada de "Floresta do Demônio", em decorrência das várias lendas sobre espíritos malignos e assombrações que a cerca.

Aokigahara é considerado por muitos visitantes como um "lugar perfeito para morrer" e ela é o segundo lugar do mundo em quantidade de suicídios (perdendo apenas para a Ponte Golden Gate, na cidade de San Francisco).

Mas o que leva pessoas a isso? E o que esse lugar tem de especial?






Diz a lenda que tudo começou com uma novela publicada pela famosa escritora Seicho Matsumoto. A estória intitulada Kuroi Kaiju (Mar Negro de Árvores) foi publicada em 1960. A novela termina com dois amantes cometendo suicídio em plena floresta, e as pessoas acreditam que foi essa estória que deu origem a coisa toda. Entretanto, muitos acreditam que a prática de suicídios em Aokigahara é bem mais antiga, e que a autora apenas incluiu essa informação na sua estória. De fato, muitos consideram que o lugar tem uma longa associação com morte e desespero. Segundo rumores, centenas de pessoas usaram as árvores da floresta para se enforcar.

O controverso bestseller de Wataru Tsurumui publicado em 1983, "The Complete Suicide Manual" (O Manual Completo do Suicida), descreve várias maneiras de se cometer suicídio e chega a recomendar Aokigahara como um lugar perfeito para se morrer. Aparentemente esse "manual" também é encontrado com frequência entre os objetos pertencentes a indivíduos que cometeram suicídio na floresta, normalmente não muito distante da vítima. Inquestionavelmente, o método preferido de suicídio nas imediações da floresta é o enforcamento.

A taxa de suicídios no Japão é incrivelmente alta, uma das mais elevadas nos países desenvolvidos. Ter essa floresta e um manual completo ensinando a cometer suicídio não ajuda a equilibrar esse percentual. A despeito de muitos esforços do governo para prevenir suicídios e manter guardas para afastar potenciais candidatos a se matar, a taxa de mortes auto-infligidas no Japão continua a aumentar.

Não bastasse a fama atual da floresta, existem estórias sinistras a respeito de Aokigahara que remontam ao período medieval. Diz a lenda que nos velhos tempos, as famílias abandonavam crianças, mentalmente incapazes e velhos na floresta para que morressem de fome, sobretudo em períodos de escassez de alimentos. Crianças nascidas com problemas físicos costumavam ser amarradas nas árvores ou eram simplesmente abandonadas à própria sorte. Velhos ou inválidos eram levados para a floresta e deixados em algum lugar remoto de onde não conseguiam retornar. Estórias sobre cegos ou deficientes deixados na floresta fazem parte do folclore local.

Em períodos de necessidade ou tragédia, a prática era extremamente comum, tanto que um dizer que sobrevive no Japão até os dias atuais é "ser deixado na floresta", expressão usada em casos nos quais a pessoa se sente abandonada ou sem perspectivas.

As pessoas abandonadas na floresta demoravam a morrer, mas quando acontecia era por fatores como fome, exposição ao clima que pode atingir temperaturas baixíssimas ou mesmo de medo. A fama de assombrada acompanha a floresta há muito tempo, tanto que crianças e velhos temiam ser abandonados nesse lugar pelos seus pais ou protetores. Não se duvida que "vou te deixar na floresta" fosse uma ameaça para crianças que não se comportavam e mesmo para velhos. 

Aokigahara é tido como um dos lugares mais assombrados do Japão e a quantidade de relatos sobre vozes desencarnadas, sombras misteriosas e sensações inquietantes em seu interior é alarmante. Os fantasmas mais frequentemente vistos no lugar, os Yurei, costumam saltar de árvore em árvore. Dizem que eles vestem longas roupas brancas e suas faces são transfiguradas pelo horror, pelo medo e loucura. Aqueles que vêem um desses espíritos amaldiçoados ficam paralisados e não conseguem correr ou se afastar. Os músculos parecem ficar congelados, o sangue não corre nas veias e um frio domina todo o corpo. Os fantasmas se aproximam então e arrastam as vítimas apavoradas para as profundezas da floresta.

As lendas de fantasmas são tantas que alguns parentes de pessoas que se suicidam nos arredores da floresta preferem culpar essas manifestações pelo infortúnio de seus entes queridos levados ao desespero. A negação faz com que muitos afirmem categoricamente que muitos suicidas são na verdade vítimas das assombrações diabólicas.

Espiritualistas japoneses acreditam que a quantidade de suicídios cometidos na floresta de alguma forma conspurcou o solo de Aokigahara, gerando uma área de atividade paranormal que impede muitos dos que entram em seus limites de escapar com vida. Mediuns entrevistados no local afirmam que as próprias árvores e arbustos tendem a conspirar contra a sanidade das pessoas, forçando-as aos seus limites.


As lendas em Aokigahara são tantas que os guardas do parque raramente ficam muito tempo no serviço. Mesmo entre eles, a quantidade de suicídios é grande.


A topografia de Aokigahara também não ajuda a tranquilizar os visitantes. A vasta floresta protegida pela UNESCO cobre uma área de 3,500 hectares forrado de árvores tão próximas que no meio da tarde se faz necessário usar uma lanterna para se guiar pelo local, tamanha a escuridão. O solo é escuro e na maior parte do ano enlameado. Há também poucos animais e o silêncio perene é enervante. Ouvir um pássaro cantando na floresta é algo incrivelmente raro. As áreas que não são cobertas de árvores, troncos e de um denso tapete de folhas secas, são pedregosas, frias e coalhadas de cavernas, muitas das quais com risco de desabamentos. Nestas cavernas já foram encontrados restos humanos de indivíduos que se perderam e procuraram refúgio no interior das cavernas. Uma péssima ideia já que a temperatura nessas grutas rochosas pode cair abruptamente provocando congelamento.

A floresta é famosa por ser um lugar fácil de se perder. Não há como se guiar através das estrelas e as trilhas existentes tendem a ficar cobertas de folhas e vinhas. O solo é incerto, com buracos cobertos dessas folhas que podem engolir uma pessoa adulta. No fundo desses grotões há depósitos de fungos e uma espécie de urtiga venenosa que pode matar alguém alérgico em poucos minutos. Mesmo a sadia prática do hiking não é estimulada na floresta e as pessoas que insistem em fazê-lo são recomendadas a JAMAIS andar sozinhas. Há alguns anos, um grupo de turistas encontrou um desses grotões e por pouco um deles não morreu caindo em seu interior. Os guardas foram chamados e encontraram ali dentro ossadas antigas de pelo menos três pessoas.

O lugar possui um outro fator de estranheza que só vem a somar com o clima bizarro reinante. Telefones celulares, aparelhos de GPS e até mesmo bússolas tendem a falhar em virtude de ricos depósitos de ferro na área e do solo vulcânico. Esse fator por si só, por muitos anos foi suficiente para perpetuar incontáveis casos de desaparecimento na região.    

Além dos inconvenientes restos humanos que por vezes podem ser encontrados "brotando" no solo da floresta, há sinais macabros em todo canto que não deixam o visitante esquecer a natureza soturna do lugar. Cordas penduradas aqui e ali, marcas arranhadas em troncos de árvores com últimas palavras e fotos deixadas por parentes para lembrar dos suicidas. Há ainda placas colocadas pela polícia onde se lê: "Sua vida é preciosa, não dê um fim a ela" ou "Por favor, fale com um conselheiro se você está passando por uma situação de crise". Essas frases tentam desencorajar possíveis suicidas. Julgando pelo aumento de mortes na floresta, a política parece não ter surtido efeito. 


Em meados de 1970 a quantidade de suicídios no Japão se tornou uma preocupação legítima na floresta. Uma vez por ano, a floresta fica fechada por uma semana, período em que as autoridades realizam uma varredura em busca de suicidas não localizados e restos humanos. Em 2002, 78 corpos foram encontrados em Aokigahara, ultrapassando o recorde anterior de 74 corpos em 1998. Em 2003, o número foi de 100.

Nos últimos anos, o governo local deixou de publicar o número de suicidas encontrados e o de tentativas reportadas, acreditando que a divulgação servia como um incentivo. Estimativas não oficiais afirmam que em 2004, 108 pessoas teriam desaparecido na área de Aokigahara. Em 2010, o número teria saltado para 247 tentativas, e 128 suicídios bem sucedidos. Mas esse número se refere apenas aos suicídios e tentativas confirmadas, sendo possível que o número real seja muito maior. Quem sabe quantos mais não foram achados?

É surpreendente que um lugar com uma estória tão macabra seja tão pouco conhecido. O fato é que a natureza estranha da floresta, faz com que os japoneses comentem pouco a respeito desse lugar. Muitos o consideram como um verdadeiro tabu e preferem sequer falar a respeito dela.

As pessoas que vivem nas proximidades de Aokigahara sofrem uma espécie de descriminação direta por habitar uma área considerada agourenta. É curioso verificar que certas superstições ainda prevalecem, mesmo em uma nação moderna como o Japão. Indivíduos que vivem nas cercanias da floresta são evitados e muitas pessoas mentem a respeito de sua residência para se manter no emprego e preservar amizades. No Japão existe uma crença antiga de que as pessoas costumam carregar consigo a carga emocional do lugar em que vivem ou dormem. Não é de se estranhar que a região da floresta seja considerada como uma área cuja carga emocional é definitivamente negativa.

O mesmo acontece, é claro, com os guardas que são contratados para proteger a floresta e coibir os suicidas. Uma das atribuições deles é carregar os corpos, varrer o lugar em busca de indícios de invasores e recolher objetos abandonados ou descartados no interior. Muitos desses objetos são guardados em uma sala que se converteu em uma espécie de museu macabro, reunindo centenas de itens que pertenceram aos suicidas. Uma das superstições que vigora no Japão diz respeito a não tocar em nada que pertenceu a um suicida - pois fantasmas podem sentir ciúmes de suas possessões materiais. Tocar em tais objetos, atrai azar e a ira dos vingativos yurei.  

Para tornar tudo ainda mais estranho, as autoridades japonesas começaram a reportar uma prática macabra cada vez mais frequente. Indivíduos convergem para a floresta de madrugada para procurar ossos e objetos que pertenceram aos suicidas. Alguns ocultistas e membros de seitas, acreditam que tais objetos permitem que a pessoa exerça domínio e poder sobre o espírito do suicida, para escravizá-lo e usá-lo como arma contra inimigos ou desafetos. Cerimônias bizarras no interior da floresta foram denunciadas e coibidas e indivíduos foram processados por subtrair ossadas.

Nos últimos anos tem havido uma campanha para conscientização e valorização da vida. O governo tenta desmistificar através desses programas o tema, mas os programas ainda não causaram o impacto desejado.

A Floresta de Aokigahara continua sendo um lugar assustador e provavelmente continuará assim por um bom tempo.

Créditos: mundotentacular

~Carol

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