terça-feira, 18 de março de 2014

Inverno na cidade de Berlim

Naquele dia, o termômetro de casa estava marcando uns 7 graus que eu considerava ser quente naquele inverno rigoroso. Como de costume, fui ao trabalho, me despedi de minha amada que com uma voz de pena disse:
-Você não vai voltar para a cama?- Era uma voz tão suave que tive remorso em responder rispidamente a ela, mas era o meu jeito. Eu já havia testemunhado os horrores de uma guerra, e tinha minhas razões para falar assim. Mas de qualquer forma eu falei:
-Vou, é o meu dever. - Ela ficou triste por um tempo, mas depois se acostumou e voltou a dormir.
Nesse dia, as coisas estavam calmas de mais, e quando cheguei para atravessar Check point Charlie até Berlim Ocidental(eu achava tudo aquilo uma safadeza) avistei uma barricada um pouco alta, mas se nenhum pretexto.
Um guarda olhou para mim e falou: “O senhor quer ir até Berlim Ocidental, não é?”, eu achei meio estranho, mas falei: “Sim”. Ele me olhou com uma cara e me pediu os meus documentos, sem reclamar, eu lhe dei. Ele me deixa passar.

2 meses se passaram, mas no dia 27 de maio eu acordei com barulhos de caminhões e tratores. Achei estranho e foi ver o que se tratava. Segui com o meu carro em direção ao lugar de costume onde o guarda iria ver meus documentos. Chegando lá, vi meu amigo, Sebastian Setorvick me dando um sinal estranho para sair daquele local, eu não soube reconhecer o sinal e por isso quando cheguei mais perto fui recebido com uma chuva de balas de fuzil. Dei a ré como um louco e quase bati num trator que havia chegado pouco depois de mim.

Em casa, falei para minha mulher:
-Vamos, se vista rápido e pegue as coisas, vamos sair daqui!- Ela muito assustada obedeceu e guardou tudo numa mala, que até hoje me lembro da textura e da cor de crocodilo, pois era feita do mesmo.
Depois de um tempo na cidade de Haunsdra, meu amigo Sebastian ligou para mim e falou por telefone: “Onde vocês estão, apareci na sua casa e não tinha ninguém! Diz-me onde vocês estão e eu vou achá-los”, dei minha localização e quase 1 ou 2 horas depois ele chegou. Eu todo afobado logo o interroguei:
-O que foi aquilo?! Eu podia ter morrido!- Nem deu tempo de eu falar um palavrão, pois o sangue estava muito na cabeça.
-Calma, eu vou explicar tudo a vocês. O nosso coronel falou para quem chegar mais perto do muro, era para atirar, sem dó. É claro que eu não faria isso com vocês, mas meus “amigos” fizeram. - Eu ainda estava meio em dúvida por que diabos eles haviam construído aquele muro, mas eu deixei que prosseguisse. Mas Catharina(a mulher que sempre falo) perguntou a ele:
-Porque eles construíram aquele muro?- Não sei por que, mas só naquele momento eu percebi sua real beleza: cabelos ruivos, e bem chamativos, uma face linda e branca como a de uma boneca e uma intelectualidade impressionante e até mesmo chamativa, não por ser “barraqueira”, mas por se destacar na multidão.
-Há um boato que diz que a URSS está perdendo a mão de obra para a parte Ocidental, e para cuidar disso, eles construíram essa parede horrenda. -

Nesse momento um batalhão de soldados entrou no casebre onde nós estávamos começaram a atirar como loucos. Um dos tiros acertou Sebastian no braço e o outro acertou em mim. Depois disso desmaiei e quando acordei, o vi agonizando e não vi Catharina. Rapidamente peguei os curativos e fechei a ferida que estava jorrando sangue.
No instante que percebi a falta dela, fiquei maluco, quebrei tudo, mas o coitado que havia levado um tiro me consolou e disse:
-Temos que resgatá-la, eu sei onde fica o QG deles, leva um tempo para transportarem ela para a prisão. Ela deve estar lá. -
Sem pensar, na verdade pensando como ela deve estar, eu fui com a pistola de meu falecido pai e muita coragem.
Chegando ao quartel, eu vi umas das cenas mais horríveis de toda a minha vida. Ela estava amarrada e toda nua, possivelmente servindo de escrava sexual. Fui de cara à tapa(não era muito de andar e modo surdina)e levei mais dois tiros. Meu amigo coitado levou um na cabeça onde jorrou sangue até na minha boca.
Os demônios sabendo que eu fui lá para resgatá-la fez uma chantagem: Ou eu me entregava, ou ela morria.

Foram os segundos mais difíceis da minha vida. Com o coração na mão dei 5 tiros nela. O tempo parou… Os soldados me deixaram viver, e viver com a culpa da morte dela. Mas antes de ir, ela me disse: “Obrigado…” eu sabia que ela morreria de qualquer jeito e em vez de morrer sofrendo, eu a concedi uma morte não tão dolorosa. 
                                                                                                                 Iavan Scolovski - 1999
                                                                                                           Inverno na cidade de Berlim    


~Carol

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