quinta-feira, 13 de março de 2014

Dark Wood Circus

  Já não me lembro se eu me encontrava acordado ou em meio a um sonho, apenas me recordo de abrir meus olhos e estar deitado no chão de um escuro e triste bosque…
  A Lua já estava alta, sua luz era tudo o que eu possuía para me guiar na escuridão da noite. Comecei a caminhar, na esperança de encontrar a saída daquele lugar tão fúnebre. Caminhei com certa dificuldade, tropeçando em raízes e corpos de animais mortos ou então me enroscando em galhos que eu não vira. Avancei em linha reta por algum tempo, mas logo percebi que não chegaria a lugar algum.
  Estava prestes a desistir, afinal, não sabia onde eu estava ou como eu havia chegado lá, apenas sentia que deveria sair o mais rápido possível. Quando ouvi uma voz dizer: “Oh, você está aqui! Você está aqui!”. Entre um riso e um choro a voz, ou melhor as “vozes” continuaram: “Venha ver, venha ver: A Deformidade!!!”.

  Minhas esperanças se renovaram e corri em direção as vozes, mal consegui respirar, quando as “vozes” voltaram a sussurrar: “Venha” novamente entre um riso e um choro “Venha ver, A Deformidade”. Em meio a corrida uma fria brisa acariciou a minha face, junto da brisa veio um forte cheiro de podridão e morte, como se alguém tivesse aberto um túmulo. Parei, assustado com o terrível cheiro, mas outra brisa, ainda mais fria que a anterior, passou por mim. Desta vez trazendo consigo um aroma doce, deliciosamente doce, apagando qualquer sinal do estranho e fétido cheiro de morte. Logo pude ouvir o som de uma melodia alegre.
  Decidi correr em direção à música e ao delicioso aroma. Então, não demorou muito para novos sons e sensações chegarem até mim. Gargalhadas, gritos de espanto e sons de palmas ecoaram em meus ouvidos, uma estranha euforia começou a brotar em meu peito. Uma estranha euforia que me forçava a correr cada vez mais rápido. Corri mais rápido do que minhas pernas podiam aguentar, mas não hesitei em correr.
  Quando finalmente parei, meus pulmões já gritavam por misericórdia, vi uma grande e colorida placa que dizia apenas “Bem vindo ao Dark Wood Circus”. Enquanto eu tentava recuperar o fôlego e olhava para a placa, senti alguém ou algo atrás de mim….
  Um ligeiro arrepio percorreu meu corpo ao sentir a estranha presença. Relutante, virei-me para ver quem ou o que me observava. O que eu vira era algo assustador. Um homem absurdamente alto me olhava. Seus olhos eram negros e enormes, suas pernas e braços eram longos e finos. Ele trajava um terno e uma cartola. Ao perceber meu olhar assustado ele sorriu e aproximou seu rosto ao meu… Após um longo minuto, o estranho homem piscou e sussurrou: ” Se deseja ver a Deformidade, pode entrar. No Dark Wood Circus, todos são bem vindos”. Por fim ele abriu um sorriso alegre, mas ao mesmo tempo doentio.
  “Vamos, meu jovem, entre.” Outra voz sussurrou, radiante. Era uma mulher, uma mulher tão alta quanto o senhor de terno. Seus cabelos eram de um dourado magnífico, seus olhos também eram negros e enormes, ela também sorria e me encarava. A estranha mulher usava um longo e belo vestido verde. Após eu apenas concordar com um movimento, ambos se afastaram de mim e foram embora dançando uma música que eu não conseguia ouvir.
  Resolvi entrar no estranho circo, afinal eu não sabia aonde eu estava e, talvez, pudesse perguntar para alguém que trabalhasse nele como eu poderia sair daquele bosque. Entrei e me deparei com muitas cortinas de várias cores. Algumas tinham palavras escritas de forma rabiscada. Fiquei me perguntando o que significavam tais palavras.
  Como não consegui chegar em conclusão alguma, atravessei a primeira cortina. Ela era amarela e nela estava escrito com letras negras as palavras “Um com duas cabeças". Fiquei intrigado e curioso com tais palavras. Mas atras dela havia apenas uma sala vazia.
  Entrei na sala amarela e vazia. Havia comida, roupas, sangue e resto de animais mortos espalhados pelo chão. Conforme eu caminhava pela grande sala, comecei a ouvir um riso e um choro que logo reconheci. Eram os mesmo que eu havia escutado no meio do bosque. Então pude ouvir com clareza a voz que ria dizer: “Então você realmente veio!!!”. Logo em seguida a voz que chorava completou: “Não devia ter vindo”.
  Me virei e vi os donos das vozes. Eram “duas” crianças, uma menina e um menino. A menina ria e me olhava com alegria, já o garoto parecia chorar de dor e me encarava com angustia. Pareciam ser irmãos, mas eu não posso dizer com certeza pois seus corpos, ou melhor, seu corpo estava num estado próximo ao da decomposição. Não tenho ideia de como estavam vivos. Sim, eles possuíam apenas UM corpo. “Um com duas cabeças”, pensei.
  Não, eles não eram gêmeos siameses, disso eu tinha CERTEZA. Havia inúmeras costuras em seus pescoços, como se um dia suas cabeças tivessem sido decapitadas e recolocadas em outro corpo…
  “É tão divertido! É tão divertido!” disse a menina. Correndo em direção ao que parecia um picadeiro. “É muito doloroso. Tão doloroso.” Suspirou de dor o menino. E os perdi de vista antes que pudesse entender o significados de suas palavras…
  Ainda confuso com o que acabará de me acontecer, resolvi passar por outra cortina. Dessa vez uma cortina verde, que dizia apenas: “A Diva Deformada”. Mais uma vez fiquei confuso com o que dizia a placa, mas nada deveria ser pior que os gêmeos que agora dividiam o mesmo corpo.
  Entrei em outra sala, dessa vez pude ouvir uma estranha melodia. Alguém estava cantando, uma voz triste, delicada e incrivelmente bonita cantava uma fúnebre música: “Eu quero morrer, eu só penso em morrer. Queria sair daqui, mas alguém disse que é impossível. Eu ficarei aqui para sempre". Caminhei em direção à voz com certo receio do que eu poderia encontrar. Enquanto eu andava pela sala pude notar restos de comida pelo chão — eu me pergunto até hoje como eu não sentia o cheiro da podridão naquele lugar — e manchas estranhas espalhadas pelo lugar. Não demorou muito para eu encontrar a dona da melodiosa voz.
  Era uma garota que, um dia, fora bela. Ainda havia traços de beleza em seu rosto, mas sua expressão demonstrava grande dor e agonia. Fiquei imaginando o porquê daquela expressão e, principalmente, onde que estava a diva deformada.
  "Eu só quero morrer!"
  Mas logo descobri assim que vi as pernas da garota, ou melhor, o que deveriam ser as pernas da triste diva. O que vi eram pernas de algum animal, e não era apenas as pernas, da cintura para baixo podia-se ver que não era humano e sim partes de um animal. Seu corpo havia sido dividido ao meio, literalmente, e remendado à metade do corpo de alguma coisa.
  Enquanto eu a encarava, horrorizado, os gêmeos entraram na sala carregando uma cesta cheia de frutas, frutas podres, e a deram à triste diva que, sem pensar duas vezes, começou a devorá-las. Eu mal conseguia olhar para a cena, as frutas não só estavam podres como também haviam larvas se retorcendo entre elas e os dedos da diva. Enquanto ela devorava as frutas os gêmeos riam e cantarolavam: “É tão divertido! É tão divertido!”.
  Com ânsia me retirei da sala. Depois de ver essas terríveis “criaturas” eu imaginei que não deveria existir mais nada pior…. Como eu estava enganado…
  Só havia mais uma cortina, pelo que eu notará. Ela era azul orvalhada de vermelho, sangue provavelmente. Além de dizer o nome da “criatura” que estava por traz da cortina “A Besta Azul” também havia um aviso: "Não alimente a besta, ela só deve comer coisas geladas". Li o aviso, curioso. O que poderiam ser essas “coisas” geladas? Pior que as frutas podres infestadas de larvas não poderia ser. Agora eu penso com clareza e sei que deveria ter saído do circo nesse instante, mas minha curiosidade foi maior e acabei entrando na sala da besta azul.
  Entrei e desejei jamais ter encontrado esse maldito circo…
  A primeira coisa que eu vi ao entrar na sala foi um rapaz sentado de costas para a entrada. Ele não se mexia, resolvi me aproximar devagar, com medo de assusta-lo. Quando eu já estava bem perto ele virou o rosto em minha direção. Era um rapaz bonito de olhos e cabelos azuis, imaginei que era por ser a “Fera azul”. Seu rosto estava manchado de sangue, notei que ele estava usando uma coleira e uma camisa de força, fora todas as correntes que o prendiam sentado na simples cadeira de madeira, onde ele estava.
  Enquanto eu o encarava ele sorriu. O que me surpreendeu. Continuei o encarando para ver se encontrava alguma deformidade nele. Mas encontrei apenas seu olhos azuis que pareciam pedir alguma coisa. Aproximei meu rosto ao dele e percebi que ele se sentia desconfortável com a coleira e resolvi afrouxá-la um pouco, afinal nenhum ser humano deve ser tratado como um animal. Quando minha mão se aproximou do rapaz, ele simplesmente MORDEU ela a ponto de arrancar um pedaço. Gritei de dor e lhe empurrei com força.
  Afastei-me o mais rápido possível, a dor era quase insuportável — isso era o que eu pensava, antes de descobrir o que era a verdadeira dor.
  Ele ama comer coisas geladas.
  Ele me olhava enquanto lambia o sangue que lhe escorria pelo rosto. Ele sorria, mas não como antes, seus sorriso era psicótico, insano. Eu estava prestes a sair correndo quando os gêmeos entraram carregando um grande saco preto.
  Eles olharam para mim e para a besta, e disseram assustados: “Você não pode alimentá-lo!!! Ele só pode comer coisas frias!”. Atordoado, fiquei apenas olhando para os gêmeos. Eles apenas me encararam por alguns segundos antes de voltarem a fazer o que estavam fazendo.
  Mexeram no saco preto e se aproximaram da besta. Eu NUNCA iria imaginar o que significaria “coisas geladas”, mas certamente eu rezaria para não ver o que eu vi naquele dia. Os gêmeos tiraram o “jantar” da besta de dentro do saco. Eram PESSOAS, pessoas mortas ou pelo menos partes de pessoas morta há muito tempo. Eles jogaram os braços, pernas e outras partes já em estado de putrefação em direção à besta, que sorriu, da mesma forma que uma criança sorri quando sua mãe faz sua comida preferida.
  Sem hesitar a fera azul cravou seus dentes num dos pedaços de carne podre. Conforme ele mastigava eu pude ver larvas caindo e se contorcendo. Ao ver aquilo o perfume doce que estava ao meu redor sumiu e o cheiro de carne podre invadiu a sala. Era como se eu tivesse saído de um transe.
  Sai daquela sala horrível, quase vomitando tentei caminhar na direção da saída. Foi quando eu vi uma pequena criança e, foi ao vê-la, que me lembrei de como eu chegará naquele bosque. Eu estava seguindo aquela criança. Isso, era a minha irmã mais nova. Ela disse que tinha visto um palhaço de duas cabeças e ia atrás dele. Preocupado eu a segui até um estranho bosque e tropecei, eu devo ter perdido a consciência ao cair.
  Feliz de ver que ela estava bem e que poderíamos enfim ir embora, corri em sua direção. Quando eu a alcancei, eu a abracei e disse que era melhor nós irmos embora. Foi quando ela se virou para mim e disse:
  É tão DIVERTIDO!!!!
  Nunca mais poderei ver a luz do Sol, o céu azul ou sentir a brisa do mar. Pois a podridão cobriu os meus olhos… sinto que perco a minha sanidade a cada segundo que se passa. Não me deixam sair, nunca mais poderei retornar. Minha irmã foi devorada pela Deformidade e eu também serei devorado…
  A Deformidade!!! A Deformidade!!!! AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA AHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!!!!!! É tão divertido! É tão DIVERTIDO!!! Oh você está aqui! Você está aqui! Venha ver! Venha ver! É tão divertido!

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Essa creepy é baseada na música de mesmo nome: Dark Wood Circus, produzida pelo cantor e compositor Machigerita.

Fonte: Creepypastas Macabras
~Rebian

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