domingo, 19 de janeiro de 2014

Sonho dos Macacos


  Essa é a história de um sonho. Você sabe. O tipo de sonho em que você de repente toma consciência de que está sonhando. Era esse tipo de sonho.
  Eu estava sozinho, de pé na plataforma de uma estação de trem deserta e mal iluminada.
  "Uau, que sonho chato" pensei.
  Então, eu ouvi um anúncio vindo do alto-falante. Uma voz tediosa e monótona disse:
  "O trem vai chegar em breve. Se você embarcar, vivenciará algo muito assustador".
  Logo após este anúncio enigmático, o trem chegou à estação. Contudo, não era realmente um trem. Parecia mais com o tipo de trem que você vê em parques de diversões, como uma montanha-russa. Havia umas poucas pessoas sentadas nos carrinhos, com os rostos muito pálidos.
  "Que sonho louco" eu pensei, mas estava curioso sobre o anúncio que ouvi. Eu poderia mesmo ver algo assustador? O que poderia ser? Decidi embarcar no trem e descobrir. Afinal, como poderia ser assustador, se eu sabia que era tudo um sonho?
  Sentei no terceiro carro de trás para frente. O ar em torno de mim estava desconfortavelmente quente. Tudo parecia tão real que eu comecei a me perguntar se estava realmente sonhando.
  "O trem está partindo agora" disse o anúncio.
  Quando o trem começou a se mover, meu coração batia com ansiedade. Eu me perguntava o que iria acontecer. Logo após o trem deixar a plataforma, nós entramos num túnel iluminado por uma estranha luz roxa.
  "Já vi esse túnel antes!" Eu disse a mim mesmo. Era o túnel de um trem fantasma de um parque de diversões que eu costumava ir quando era criança. É por isso que eu estava sonhando com aquele estranho trem de montanha-russa. Só estava me lembrando de todas as casas mal-assombradas da minha infância.
  "Isso não é algo para se ter medo" disse a mim mesmo.
  Então, houve outro anúncio.
  "Próxima parada, Ike-zukuri! Ike-zukuri é o próximo!"
  "Ike-zukuri?" Eu pensei. "Isto não é uma estação, é um raro jantar japonês!" Um hábil chefe japonês pode cortar um peixe e cozinhá-lo de maneira que ele ainda esteja vivo quando eles o servem a você. O pobre peixe morre no seu prato, ofegando por ar enquanto você o come. É grotesco, mas no Japão é considerada uma iguaria.
  Eu continuava pensando sobre isso quando ouvi um som, um grito penetrante vindo de trás de mim. Me virei e vi quatro anões corcundas, vestidos com trapos. Eles estavam cercando o homem do último vagão. Olhei melhor, e vi que os anões estavam usando máscaras de macaco e brandindo grandes facas afiadas. Eles começaram a cortar o homem em pedaços, bem diante dos meus olhos.
  Eles o estavam preparando, da mesma forma que um chefe prepararia Ike-zukuri!
  Um cheiro insuportável impregnou o ar, e o homem continuou gritando e gritando, enquanto eles puxavam seus órgãos ensanguentados para fora de seu corpo e os espalhavam pelo vagão.
  Eu notei uma mulher de cabelos longos e aparência doentia sentada diretamente atrás de mim. Quando os gritos começaram, ele entrou em pânico, mas só por um instante. Depois ela ficou quieta, olhando para frente, como se nada estivesse acontecendo.
  Eu estava horrorizado com as coisas terríveis que estavam acontecendo atrás de mim, e comecei a me perguntar se estava realmente sonhando.
  Quando me virei novamente, o homem no vagão de trás havia sumido. Tudo o que restava eram manchas de sangue e pedaços vermelhos de carne. A mulher atrás de mim continuava olhando para frente, inexpressiva.
  “Próxima parada, Colheres!” disse o anúncio. “Colheres é a próxima!”
  Dessa vez, dois dos anões com cara de macaco apareceram, carregando colheres com bordas serrilhadas. Eles começaram a escavar os olhos da mulher atrás de mim. Até agora, ela tinha estado inexpressiva, mas a dor retorceu seu rosto em uma expressão de horror. Ela começou a gritar tão alto que eu pensei que meus tímpanos iriam estourar. Seus olhos voaram para fora das órbitas. O cheiro de sangue e suor era insuportável.
  Eu estava curvado, tremendo de medo. Não aguentava mais isso.
  “Acorde!” disse a mim mesmo. “Eu tenho que sair daqui! Por favor, acorde!”
  Em seguida, um pensamento horrível me atingiu. A julgar pela forma como as coisas estavam acontecendo, eu era o próximo na linha...
  “Próxima parada, Carne Moída!” disse o anúncio. “Carne Moída é o próximo!”
  Eu me senti doente. Não era difícil imaginar o que aconteceria a seguir.
  Concentrei-me o máximo que podia, tentando desesperadamente me forçar a acordar daquele sonho.
  “Vamos! Acorde!” disse a mim mesmo. “É só um sonho! Acorde! Acorde!”
  De repente, ouvi um alto zumbido metálico. Parecia uma máquina de moer. Desta vez, os dois anões vieram e sentaram sobre os meus joelhos. Eles estavam segurando um aparelho de aparência estranha que eu presumi ser uma máquina de moer. Eu estava apavorado.
  “É só um sonho horrível! Acorde! Acorde!” Fechei meus olhos e rezei. “Pelo amor de Deus, por favor, acorde!”
  Whiiiiiiiiiiiiirrrrrrrrr!
  O som estava chegando cada vez mais perto.
  Eu podia sentir o vento da máquina no meu rosto.
  Tinha certeza de que não havia esperança para mim. Era o fim. Eu estava liquidado, com certeza.
  Então, de repente, tudo ficou em silêncio.
  Acordei na minha cama, ensopado de suor. Lágrimas rolavam pelo meu rosto.
  De alguma forma, eu tinha escapado do pesadelo.
  Saí da cama e fui para a cozinha. Tomei um copo d’água e tentei me acalmar.
  “Aquilo foi horrivelmente realístico,” pensei. “Graças a Deus foi só um sonho...”
  No dia seguinte, na escola, contei aos meus amigos sobre o sonho terrível que tive. Achei que eles ficariam horrorizados, mas eles só acharam engraçado. Eu acho que era, de alguma forma. Afinal, era apenas um sonho.
  Quatro anos se passaram e eu terminei meus estudos. Já havia esquecido completamente do sonho.
  Contudo, uma noite, eu estava trabalhando até tarde no escritório. Havia sido um dia puxado e eu estava muito cansado. Me inclinei na minha cadeira e fechei meus olhos, só por um momento.
  Foi quando aconteceu.
  “Próxima parada, Colheres! Colheres é a próxima!”
  Era o mesmo. Tudo veio à tona.
  Os mesmos dois anões tortos em máscaras de macaco estavam arrancando os olhos da mesma garota inexpressiva.
  “É só um sonho! Acorde! Acorde!”
  Eu comecei a rezar, mas não conseguia acordar.
  “É só um sonho! Acorde! Por favor, acorde!”
  Whiiiiiirrrrrrrr!
  Estava se aproximando.
  “É tudo um sonho! Acorde! Acorde! Por favor, acorde!”
  De repente, tudo ficou em silêncio.
  Eu havia escapado de novo. Ou foi o que pensei.
  Quando estava prestes a abrir os olhos, uma voz disse, “Você está fugindo novamente? A próxima vez que viermos para você, será a última!”
  Abri meus olhos e desta vez estava realmente acordado no escritório. Mas o anúncio que ouvi definitivamente não estava no sonho. Eu o ouvi aqui, no mundo real. Eu sei que ouvi. Não há dúvidas sobre isso.
  Por que eu? O que eu fiz para merecer isso?
  Não tive mais o sonho desde então, mas eu sei que na próxima vez que tiver, vou morrer.
  Provavelmente será por parada cardíaca ou algo assim.
  Nesse mundo, parecerá uma parada cardíaca, mas no outro mundo, eu sei, eu serei carne moída...



Traduzido de: Monkey Dream

~Rebian

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