quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Boneca de Pano

  Isso provavelmente vai soar um pouco cliché, exagerado e excessivo, mas eu te juro que é tudo verdade.
Alguns meses atrás minha tia cometeu suicídio com uma overdose de remédios. Nós não sabemos o que a levou a isso, mas achamos que pode estar relacionado com a separação que ocorreu entre ela e seu companheiro de longo prazo; ela não deixou um bilhete, ou seja, nunca saberemos o que ela sentia nas últimas horas de sua vida. Ela não fez um testamento, então a família decidiu dividir suas posses, e dar para a caridade o que eles não fossem usar. Eu fiquei com uma velha boneca de pano, que ela tinha desde que consigo me lembrar. A boneca não tinha nada de especial, exceto que havia sido minha tia quem a fizera, e a única coisa que você poderia justificadamente chamar de estranha é que ela não tinha rosto e usava um colar feito de um crânio de pássaro de verdade em torno de seu "pescoço" (eu coloquei aspas em pescoço porque não havia realmente um pescoço, já que a cabeça havia sido costurada diretamente no corpo).


  Todo mundo fugia da boneca como se ela fosse amaldiçoada, mas eu sempre a amei e costumava pedir para dormir com ela sempre que passava a noite com a minha tia - eu não tinha nada além de boas lembranças daquela boneca. Minha família ficou horrorizada ao saber que eu queria ficar com a velha e assustadora boneca, mas eu os ignorei.
  A morte da minha tia me abalou muito, então eu comecei a dormir com a boneca novamente, para consolar-me; é claro que eu removi o crânio de ave, já que era um crânio real (e frágil). Eu senti toda a minha tristeza ir embora assim que abracei minha pequena prima (minha tia nunca teve filhos, ela costumava brincar, dizendo que a boneca era sua filha - sua própria descendente).
  Eu não tenho certeza se isso foi causado pela boneca, mas na primeira noite em que dormi com ela, tive o sono mais tranquilo e relaxante que já tive num longo intervalo de tempo, e o sonho era muito doce e cativante. Eu sonhei que a boneca estava murmurando uma linda canção com a voz de uma garotinha. Mesmo que os anjos da guarda sejam retratados como sendo mais velhos do que a pessoa, eu senti como se ela fosse a minha anja. Quando acordei, senti uma grande paz, como se toda a minha tristeza tivesse se dissipado durante a noite, apenas senti uma pontada de tristeza ao olhar para a boneca. As próximas noites eram mais ou menos o mesmo.
  Uma semana depois da morte de minha tia, eu tive que viajar algumas centenas de quilômetros para assistir ao funeral; ela era uma mulher excêntrica e queria ser enterrada em cemitério específico com um histórico célebre. Eu não levei minha prima, o que foi um grande erro. Depois do funeral, tive o sonho mais horrível de todos, e mal consegui dormir. No sonho, eu estava presa em casa e havia algum tipo de entidade espreitando do lado de fora; Eu não podia vê-lo, mas sabia que se fosse lá fora ele iria me machucar - matar. Eu tranquei todas as portas e janelas numa tentativa de ficar segura, mas foi em vão. A entidade, de alguma forma, achou uma maneira de entrar na minha fortaleza e começou a me perseguir. Corri para o meu quarto e tranquei a porta, na esperança de que ele não conseguisse se infiltrar no meu santuário; como um cão amedrontado, eu me escondi em um canto atrás da minha cama, esperando que pudesse ganhar um pouco de tempo com isso.
  A parede se transformou em uma membrana fina e vermelha, moldada em torno dos longos e finos braços da criatura que emergiam perto do teto. Os braços pareciam crescer enquanto se aproximavam mais e mais de meu esconderijo. Eu estava congelada de puro terror enquanto eles, como se fossem magnéticos, sugavam minha vida - não só minha vida, como também meu corpo -, como cinzas ao vento. Meus olhos permaneceram fixados nesses braços até que uma nuvem cinzenta escureceu minha vista. Acordei encharcada de suor, e não consegui dormir pelo resto da noite.
  Eu me lembro muito pouco do funeral porque ficava cochilando, mas me lembro do caixão da minha tia sendo colocado dentro de um túmulo acima do solo; Eu mal consegui manter meus olhos abertos enquanto andávamos pelo cemitério.
  Não podíamos nos dar ao luxo de ficar mais um dia, para meu alívio, porém a longa viajem se mostrou tentadora demais para que eu permanecesse acordada (eu estava no carro dos meus pais, então não podia causar nenhum acidente). Eu dormi e tive outro sonho horrível. O mundo era um vazio abissal onde nenhuma luz ou som podia penetrar; gritei, na esperança de que alguém me ouvisse, mas não houve nenhum barulho vindo da minha garganta, apenas um zumbido nos meus ouvidos. Eu estendi meus braços, mas ali também, só havia o vazio do espaço.
  "Onde estou?" Fiquei aliviada em ver que, pelo menos, podia ouvir meus pensamentos.
  "O meu consolo era saber que a morte sabia meu nome..."
  "O que foi isso?" Eu sabia que eu não tinha pensado nisso, mas veio de dentro do meu cérebro - dentro de mim -, de algum lugar mais profundo do que de onde os meus próprios pensamentos vinham.
  "O meu consolo era saber que a morte sabia meu nome... mas ela também se esqueceu de mim. Ninguém vai lamentar por mim nem ninguém vai celebrar a minha chegada. Eu estou preso neste limbo eterno, apenas eu, O Esquecido".
  Meus pais me acordaram porque eu estava chorando alto enquanto dormia. Quando eu finalmente me acalmei e contei o motivo do meu choro, eles retomaram a viagem, mas resolvi que nunca mais deveria dormir desacompanhada. Isto foi realmente uma conseqüência de estar longe da minha prima ou todas as minhas emoções tinham borbulhado de volta à superfície?
  Eu dolorosamente me mantive acordada o restante da viagem, jogando um jogo no meu celular, fiz um monte de erros no jogo por não ser capaz de manter os olhos abertos, mas ele me fez resistir até chegar em casa . O sono queimava meus olhos, mas desta vez eu abracei minha prima e o recebi de braços abertos; os doces sonhos novamente.
  Minha prima cantou para mim de novo e colocou os braços sem mãos ao redor da minha mão, como se para me assegurar de que estava tudo bem. Quanto mais ela cantava, mais o seu rosto ficava mais claro e mais claro, a ponto de ela parecer uma garota viva semelhante a minha tia quando era criança. Sim, sim! Ela deve ter sido minha prima! É somente com a boneca que eu tenho sonhos tão belos e um sono reparador. Eu sei disso porque testei vários dias e os resultados foram os mesmos: sem minha prima, tenho pesadelos horríveis, mas com ela eu tenho sonhos agradáveis​​.
  É por isso, doutor, que eu tenho que ser autorizada a ter a minha prima; eu já não te disse que o medicamento não funciona? Eu te contei exaustivamente sobre a criatura e como ela continua me perseguindo nos meus sonhos, mas o que eu não disse a você, por razões óbvias, é que ela está começando a me afetar fisicamente desde que fui internada aqui. Eu sei que você acha que as minhas feridas são auto-infligidas, mas os enfermeiros podem atestar que não há nenhuma maneira de eu me machucar com os objetos no meu quarto; ouvi você comentar com um deles. Minha prima não mantém só os pesadelos longe, mas também qualquer ataque da criatura.

Eu te imploro, por favor, me deixe ter minha prima de volta!



Traduzido de: http://creepypasta.wikia.com/wiki/Cousin_Ragdoll

~ Rebian

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