terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sempre Siga a Luz

Era uma manhã fria, o rigoroso e tenebroso inverno chegava à cidade. Eu estava dormindo, como planejava fazer assim que as férias chegassem. Não sou um adulto ou algo do tipo, só uma criança que não quer ir à escola. Mesmo assim fui chamado por uma voz peculiar. "Matheus, venha tomar seu café da manhã enquanto ainda está quente!" Matheus, sim, este era o meu nome. Estava tão desnorteado quando acordei que havia me esquecido por alguns segundos. Levantei-me da cama e abri a janela, o leve vento veio ao meu rosto e eu pude sentir como o clima estava la fora. "Vou por uma outra roupa", pensei eu. Caminhei até o armário e olhei-me no espelho que existia dentro dele. Eu já estava com uma roupa ideal para o frio. Talvez eu tivesse dormido com ela, não me lembrava ao certo. Confuso, desci e fui até a cozinha. "Bom dia dorminhoco", eu era recebido calorosamente por minha mãe, "Dormiu bem?" "Mais ou menos.", eu respondi com a cabeça baixa e sono, enquanto ela colocava o meu cereal.



 "Tudo bem, o rádio disse que devido à grande quantidade de neve, as escolas não terão aula, você poderá aproveitar o dia." Aproveitar o dia, uma frase que não me lembro de ter escutado já faz um tempo. Eu comi o cereal lentamente, enquanto escutava à música da rádio. Calma e tranquila como a manhã que se iniciava. "Nossa, esta música me traz lembranças", minha mãe dizia com um sorriso no rosto e enquanto lavava a louça. Ela começou a cantarolar. Eu escutava à música enquanto tomava uma xícara de chocolate quente. Eu me lembrei de onde ela surgiu, um período bem longe e que me espanta ela lembrar. O nascimento de minha irmã, enquanto estava eu e meu pai na sala de espera. A mesma música também estava tocando para os médicos durante a operação. O clima frio e a música relaxante acalmava tanto médicos quanto pacientes e causava uma sensação de conforto em um local onde podem acontecer tanto milagres quanto mortes. Lembrando-me disso, eu também senti um sentimento de nostalgia. Este sentimento, fazia meu coração doer e eu não sabia o que era. Eu me levantei e disse: "Já volto." Corri para o meu quarto e olhei novamente para a janela, vi a neve cair e senti a nostalgia aumentar até o momento que meus instintos me chamaram para olhar para o lado. Ali eu vi a foto de minha irmã e eu nos divertindo juntos e me lembrei de algo que eu não deveria ter esquecido jamais, provavelmente eu devia estar doente ou algo assim para ter me esquecido. Minha irmã estava morta, atropelada por nosso pai que saiu de casa, magoado e sem perdoar a si mesmo. Provavelmente se matou depois de fugir, nunca conseguiram encontrar ele. Eu segurei a foto e comecei a chorar, fazia tempo que não chorava assim, não entendia o porquê até me lembrar porque este dia era tão familiar.

Eu comecei a me lembrar de um ano atrás, fazia exatamente um ano que ela havia morrido. Mas a lembrança que me veio à cabeça foi um pouco antes disso. Foi em um dia como esse, com muita neve e o vento frio, eu estava com uma roupa parecida com essa e minha irmã também estava com outra que também servia para o frio. Estávamos observando o céu, infinto e único como ele só e conversando enquanto fazíamos anjos na neve. "Irmãozinho, será que um dia nossos pais vão nos levar à Disney?", ela perguntava feliz. "Eu realmente espero que sim, também estou doido para ir!", eu respondia tentando dar algum conforto, na época eu sabia que nossos pais estavam longes de sequer ter a quantia necessária para fazer uma viagem dessas. Ficamos lá a tarde toda, brincando de anjos na neve, guerras de bola de neve e tudo relacionado à neve. Até o momento em que olhamos o céu e víamos ele ser coberto por algumas nuvens, um fenômeno um pouco comum, mas que acabou dando origem a uma ideia incomum. "Irmão, criei uma nova brincadeira!", dizia minha irmã enquanto corria até mim para me levantar da árvore na qual eu estava encostado cochilando. "Sério, qual é?", eu perguntava com curiosidade. "Olhe para o céu, vê àquela luz?". Eu desviei meu olhar para o céu para encontrá-lo parcialmente coberto. No meio dele estava um pequeno buraco, que permitia uma faixo de luz descender na Terra e assim iluminá-la, como uma estrela guia ou o sinal de um caminho. Incrivelmente, os meus pensamentos se aproximaram da ideia de minha irmã. "Eu chamo esta brincadeira de 'Sempre siga a luz'!", ela dizia completamente animada e cheia de energia. Minha irmã sempre foi desse tipo, gostava de brincar não importa com o que fosse, ela só queria aproveitar e ser criança. Eu não podia negar isto a ela e decidi me juntar à brincadeira. "Então, como ela é?". "Bem...Eu estava pensando que nós deveríamos correr sempre atrás da luz, com o movimento das nuvens ela vai se distanciando e quem chegar e ficar exatamente embaixo dela primeiro, ganha!". Eu, de primeira, achava a ideia estúpida e só estava desposto a agradar a minha irmã. Até o momento que a vi correndo para a luz e vi nela uma imagem mais simbólica do que uma imagem de brincadeira. As nuvens representavam o que há de mal no mundo e a luz, a esperança. O pequeno faixo que tenta se espalhar no rosto das pessoas, a luz é o símbolo de que não podemos desistir perante ao mundo. Ver minha irmã correndo até ela representa o quão pura a infância é, quando não sabemos do mal do mundo e quanto ainda podemos ver tudo como um bem. A época da fada do dente, do papai noel e do coelho da páscoa, algo que todos queriam poder ter preservado para sempre. Eu queria reviver isto no momento, então eu me levantei e comecei a correr. Corri como nunca havia antes, e ri. Esbanjei um sorriso enquanto alcançava a minha irmã, ela sorria também e nos divertíamos. Nos divertíamos em um dia de neve e chato, algo que somente um laço forte entre irmãos poderia conseguir fazer. É ingênuo, absurdo, dizer que existia alguém que se divertia mais que a gente naquele momento. Um momento que aos poucos me fez voltar à dura realidade: Acabou.

Eu voltei à realidade. Segurando uma foto que era para estar coberta de lágrimas, mas não estava. Diferente disso, eu escutei uma voz familiar vindo de trás de mim. Uma voz que jurava estar louco por escutar. "Irmão, o que está fazendo?". Enquanto abaixava a foto lentamente, eu dei uma rápida olhada para ela e para a pessoa atrás de mim, não havia enganos, era a minha irmã. Sim, ela estava logo atrás de mim com os braços entrelaçados e com a cabeça posta de lado, me observando, preocupada. "Aconteceu algo?", ela perguntou com preocupação. Eu imediatamente mostrei a foto a ela e disse: "Nada, só lembrando de velhos tempos e me questionando se sempre será assim." Eram palavras fortes, mas eu sabia que ela era forte também. Toda criança em seu interior é forte. Ela sorriu para mim. "Que besteira, vamos sempre brincar até quando formos adultos. Podemos até brincar no trabalho!", ela dizia com uma alegria que me fazia sorrir também. Eu comecei a me perguntar se estava louco. Existia uma clara linha entre a razão e a irracionalidade, mas parece que eu havia cruzado as duas e criado uma em que o sentido é perdido. O fato de minha irmã ter morrido, será que foi um sonho? Talvez eu tivesse sonhado e meu sub-consciente achou que fosse uma memória. Não é impossível, existem sonhos que são muito reais mas que as pessoas não se lembram. Talvez tenha sido isto. Não, com o que ela disse logo em seguida, com certeza foi. "Quer me ajudar a levar as coisas pro papai?". "Pai?" Eu me espantei quando ouvi uma voz grossa vindo do final do corredor. "Filha, já pegou a gravata do pai?!". Era a voz de meu pai, eu a reconheceria em qualquer lugar. Minha irmã me entregava uma gravata, dizendo: "Toma, eu vou dizer que você me ajudou. Assim o papai não vai ficar bravo porque não vai descobrir que você só acordou agora!" Ela me entregou a gravata e foi correndo até o quarto de meu pai, eu fui logo atrás. Eu entreguei junto com ela os pertences de meu pai. "Ah, veja quem finalmente levantou cedo. Isto é um milagre.", disse meu pai enquanto ajeitava a gravata, olhando-se no espelho. "Sim, o Matheus me ajudou muito!". "É verdade? Que bom filhinha. E também parabéns ao moço que a cada dia se torna um homem tão responsável quanto seu pai.", ele dizia enquanto tava os toques finais no cabelo e ajeitava ainda mais a gravata em seu terno. "Estou feliz em poder ajudar...", eu respondia, ainda um pouco hesitante perante à situação. "Engraçado, porque eu acabei de ver que você estava dormindo e sua irmã estava me ajudando sozinha", ele riu ironicamente, mostrando que já sabia de tudo. "Você deveria agradecê-la por isso." Eu, obviamente descoberto, só pude fazer o que me cabia a fazer: Agradecer a ela, porém foi aí que congelei. Eu agachei e me preparei para dar um agradecimento e um abraço de irmão, porém... "Obrigado...é, obrigado...". Eu esqueci. Eu esqueci.... Eu esqueci o nome de minha própria irmã. Isto não é possível. Eu tento me lembrar com todas as minhas forças, mas não consigo. Eu só posso olhar para o rosto triste dela, como se tivesse percebido, e crio coragem para terminar aquilo logo ali. "Obrigado minha querida irmã", eu dizia enquanto abraçava ela. Uma sensação de desconforto logo veio a mim: "O que está acontecendo?", eu me perguntava mentalmente. E foi assim até o momento em que saímos, eu, minha mãe, meu pai e minha irmã de casa. Agora também percebo, ao abrir a porta, que também não sei o nome de meus pais, meus amigos, eu esqueci tudo...Eu abria a porta para o mundo exterior.

Fomos até o lado de fora e meu pai até a garagem, estávamos esperando até que ele saiu de lá e disse: "Droga, esqueci uma coisa em minha cama, esperem aqui enquanto vou buscar.", ele caminhava para dentro de casa com pressa. Logo, surgiu a ideia de brincar em minha mente, não sei porquê, mas surgiu. Minha mãe ficou sentada no tapete da porta da nossa casa. Nossa casa, nossa rua, tudo. Eu havia esquecido os nomes, só os nomes. Eu podia me lembrar exatamente de com as coisas eram e são. Mas não dos nomes. Na verdade aquela cena me dava um pouco de deja-vú, principalmente quando vi minha irmã caminhando para falar com nossa mãe. "Podemos brincar na neve, mamãe?", ela perguntava com aquela cara de criança que faz de tudo para conseguir o que quer. "Tudo bem, mas procurem não ir muito longe", ela advertiu. Foi então que ela me veio pedir para brincar. "Vamos brincar de 'Sempre siga a luz' irmão!". Eu suei, suei como nunca havia antes. Uma sensação gélida veio a minha garganta e se espalhou por todo meu corpo. Era a primeira vez que eu não queria brincar em toda a minha vida. Não sei porque estava assim. Foi então que disse, bem alto: "Não! Eu não quero brincar!".

 Minha irmã ficou um pouco triste, mas ao mesmo tempo, curiosa. Ela olhou para mim. "Por que você não quer brincar? Por favor!". Eu não podia recusar um pedido a ela, mas a sensação que estava me dando de aflito era muito, porém, por impulso eu disse: "Está bem, vamos brincar." Ela comemorou e disparou logo em seguida, indo em direção ao faixo de luz que saía das nuvens e que ia, aos poucos, se afastando e encolhendo. Eu a segui e continuei a brincadeira como ela era normalmente. Até que uma grande névoa veio até nós. Era normal algo assim acontecer em dias muito frios, só que ela veio tão rápido que eu mal pude sair de perto da casa, só avancei alguns metros. Eu então, desesperado e com medo, comecei a gritar: "Irmã, venha até aqui! Por favor!", obviamente eu ainda não lembrava o nome dela, mas a segurança era o mais importante no momento. Poderia chamá-la do que quisesse, desde que ela viesse. E ela veio. Veio chorando e desesperada, com o joelho machucado. Eu a segurei. "Irmão, eu caí e me machuquei, cuida de mim." Senti um aperto no coração e só pude dizer a frase mais clichê e mentirosa de todas: "Vai ficar tudo bem, relaxe". Eu dei uma olhada no machucado, claramente ela iria ter de engessar a perna, sangrava pouco e quando tocava doía muito, algo quebrou. Ela não iria se levantar dali tão cedo. Fiz uma enorme força para levantá-la, mas logo caí também, estava fraco. Fraco para aguentar o peso de minha irmã. E foi aí que eu ouvi um barulho vindo à esquerda. Vi dois olhos brancos se aproximando de nós, só pude ouvir minha irmã gritando: "Irmão, proteja-me! Socorro!". Eu não pude fazer nada, estava congelado, eu a abracei com toda a minha força e disse: "Feche os olhos.". Esperei pelo pior, mas fui empurrado para longe. Eu só gritei: "Irmãããã!". E foi aí que percebi a névoa indo embora, estava tudo claro. Eu pude me ver segurando minha irmã, enquanto o carro de meu pai se aproximava de nós, e então... Então tudo ficou preto... Quando percebi, eu finalmente entendi o que havia acontecido. Eu estava ao lado de minha mãe e um outro menino estava na frente dela, deixando uma rosa em uma lápide. Meu pai colocava a mão no ombro dele e chorava muito: "Nós sempre visitamos os dois quando podemos, e, dessa vez, decidimos trazê-lo. Já faz um ano..." Era uma criança adotada, mas que chorava também. Pois ele poderia ter um irmão se o destino não o tivesse impedido. Minha mãe também chorava, meu pai também, era uma cena triste demais para alguém como eu observar. Ao olhar o clima em volta, eu pude ver a neve caindo, as nuvens cobrindo o céu e eu olhando para cima, vendo um faixo de luz caindo sobre a lápide. "Aqui jaz Matheus e Rebecca, duas crianças felizes." Sim, Rebecca, este era o nome de minha irmã... Eu pude vê-la uma última vez, vi sua mão vindo da luz que pairava sobre a lápide e ela me dizia: "Sempre siga a luz.". Eu segui a luz e com ela subi até os céus. Neste dia eu lembrei que, há um ano atrás, eu e minha irmã havíamos morrido. Neste momento, eu finalmente segui a luz...

Retirada de Wiki Creepypasta Brasil post original: Creepypasta Wiki

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